Por Marilia Middleton
Morar no barco tem sido uma experiência muito rica para mim e para minha família. Esse novo estilo de vida está me fazendo perceber que ter menos pode ser um sinônimo de ter mais. Parece não fazer sentido essa minha colocação mas vou explicar.
As meninas Middleton
Quando nos mudamos para o barco tivemos que reduzir muito tudo que tínhamos devido ao pouco espaço. Reduzimos roupas, brinquedos, panelas, aparelhos eletrônicos, objetos de decoração, e principalmente sapatos, pois acho que é um dos itens que todos nós temos em excesso. Além disso, tivemos que nos despedir da família, dos amigos, dos colegas, dos esportes que fazíamos, da escola, do trabalho, da cidade em que morávamos. Mesmo com toda a animação da aventura de morarmos em um barco velejando mundo afora, a sensação que tínhamos era a de perda.
 O dia a dia no barco é bem diferente do que tínhamos na nossa casa nos Estados Unidos, com algumas rotinas diárias bem diferentes do que estávamos acostumados. Tínhamos tantas atividades para fazer quando estávamos nos Estados Unidos que não tínhamos tempo disponível para a família.
Vivendo no barco temos menos conforto, mas a convivência em um espaço menor nos ensina a sermos menos egoístas e mais conscientes. Convivermos – eu, meu marido e filhas – 24 horas por dia, está fazendo com que a nossa família seja mais unida e mais colaborativa. Nós conversamos mais e curtimos mais momentos juntos.

Aos poucos as crianças estão entendendo a importância do papel delas também no barco, o que faz com que elas tenham senso de responsabilidade fazendo com que sintam-se  seguras de si mesmas. Revezamos tarefas como cozinhar, colocar a mesa, lavar os pratos, estender roupas, ficar acordada em vigília quando estamos velejando à noite, comprar comida para estocar, dirigir o bote (o que é divertido, mas também é uma medida de segurança em caso de emergência), levantar ancora, ajudar com as velas e as cordas do barco, estudar mesmo sem estar na escola. Tudo isso tem sido um aprendizado. Cruzar oceanos e conhecer culturas diferentes é uma experiência inexplicável!

Me dei conta que o que parece ser uma longa viagem de férias, um sonho fora da realidade, na verdade é um aprendizado de vida. Estarmos expostos à várias realidades nos faz sentir que esse é o mundo real.