Ponte Social: instituto conecta refugiados a empresas

O número de refugiados no Brasil saltou de 8.863 em 2016 para 9.689 em 2017. Os dados são do mais recente relatório do Acnur (Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados), considerado o maior levantamento sobre deslocamentos do mundo.

O Instituto Ponte Social (www.institutopontesocial.com.br) é uma das incríveis iniciativas que fazem parte do CIVI-CO, espaço 100% voltado para impacto social, em São Paulo. O projeto nasceu para dar a refugiados uma oportunidade de trabalho.

“No primeiro momento o nome do projeto era Oportunidade,” lembra Nelson Domingues, um dos sócios-fundadores.

Nelson Domingues, do projeto Ponte Social, na sede do Civi-co, em SP
Nelson Domingues, do projeto Ponte Social, na sede do Civi-co, em SP

Nelson é psicólogo, teólogo, empreendedor social e  Professor de Teologia.

“O Curso livre de Teologia Vida & Missão  que eu dou visa equipar os cristãos não para serem pastores ou missionários, mas sim para praticarem o Evangelho em todas as áreas da vida. A questão aí é pessoal, como eu posso transformar a sociedade?”

Imagem dos sócios do instituto Ponte Social
O professor Nelson Domingues e seu aluno Bruno Kobayashi, “o Zé do Hambúrguer.”
“Um dos meus alunos é sócio do Zé do Hambúrguer e ele apresentou um trabalho voltado para refugiados. Ele me procurou e falou: “vamos colocar esse projeto em prática.” Começamos a conversar e a desenvolver a ideia. Cheguei a apresentar o projeto para a Secretaria dos Direitos Humanos em São Paulo, mas por questões políticas encaminharam para a Secretaria do Trabalho.  Achei que não seria interessante porque era mais marketing, não estava voltado para um projeto que fosse ajudar as pessoas. Mas a partir daí, a demanda foi aparecendo, outros parceiros também foram vindo e teve uma hora que eu tive que estruturar, ir além dos refugiados. Tem um público grande em situação de vulnerabilidade na cidade de São Paulo e eu faço essa ponte entre eles e as empresas. Por isso o nome Ponte Social.”

imagem de refugiado negro com ar distante e preocupado
Foto: Pixabay

“Refugiado é uma pessoa que sai de seu país por conta de “fundados temores de perseguição por motivos de raça, religião, nacionalidade, grupo social ou opiniões políticas”, em situações nas quais “não possa ou não queira regressar” (http://www.politize.com.br/crise-dos-refugiados/)

Muda Tudo: Nelson, como você chega a essas pessoas? E como você seleciona as empresas?

Fundador do Instituto Ponte Social e parceira do Coffee Lab
Nelson Domingues e Isabela Raposeiras do Coffee Lab

Nelson Domingues: Em um primeiro momento comecei com uma rede próxima a mim, com o Zé do Hambúrguer e o Coffee Lab.  O Coffee Lab capacita as pessoas através de cursos para baristas de café. É um dos mais conceituados, se não for o melhor curso de barista no Brasil. E aí fomos fazendo parcerias. E eu percebi que não seria o melhor captador de pessoas, que existem organizações que fazem isso melhor do que eu. Cada empresa traça o seu perfil e eu recorro às ONGs, a partir deste perfil. Têm algumas voltadas para refugiados, como os haitianos, outras para pessoas em situação de rua, egressos de sistema penitenciário…

MT: Você acha que essas empresas se interessam porque ganham maior relevância no mercado ou porque tem a ver com o propósito delas mesmo?

ND: Até agora têm sido mais pequenas e médias empresas interessadas e há sim uma afinidade delas com o tema. Passa por uma questão pessoal dos próprios proprietários. Mas é claro que também ajuda na credibilidade. Hoje em dia impacto social é fundamental.

Homem sorrindo no trabalho com mensagem de felicidade pregada na testa
Foto: Pixabay

ND: A ideia é, no futuro, termos um selo social para empresas que tenham essa vocação.  Assim como tem o impacto de sustentabilidade na área ambiental, quero mostrar o impacto na área social. É fundamental hoje o compromisso com o meio-ambiente, mas também com as pessoas. As pessoas são fundamentais se você quer um mundo melhor.

MT: E de que forma as empresas podem trazer isso para seus funcionários?

ND: Eu faço um trabalho junto às empresas voltado para o voluntariado corporativo.  Como a sensibilização dos funcionários em relação a refugiados, por exemplo, que têm um problema com o idioma. A ideia é criar este ambiente mais humanitário. Nós estamos criando um trabalho corporativo baseado em 4 caminhos: pessoas, lucro, meio-ambiente e  generosidade.

MT: Generosidade?

ND: Sim, generosidade vale a pena!

“Estudos feitos apresentados no documentário Happy mostram que uma pessoa que faz boas ações é mais feliz.”

ND: Temos trabalhado muito com a questão da generosidade. Pessoas generosas geram um mundo melhor. Isso é importante na conscientização de que eu, as pessoas, se todo mundo for generoso o mundo vai ser muito melhor do que ele é. A generosidade é muito importante nesse processo da construção de um mundo sustentável. Um mercado de trabalho não é só o ganho do sustento, vai além. A gente precisa do trabalho, mas se a gente inserir generosidade no ambiente corporativo, ele vai extrapolar isso e a sociedade vai ser bem mais generosa.

Foto garoto negro refugiado com um sorriso leve
Foto: Pixabay

 “O princípio da dignidade da pessoa humana, tamanha sua relevância, importância e significado, foi elevada a categoria de direito fundamental pela Constituição de 1988, que em seu artigo 1º, inciso III proclama que “A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado Democrático de Direito e tem como fundamentos: (…) III – a dignidade da pessoa humana.”

MT: Nesta experiência com esse projeto você já deve ter conhecido algumas pessoas bem generosas. Tem alguma história em particular?

ND: Eu empreguei alguns haitianos em uma empresa e eles chegaram lá, não falaram nada, mas estavam passando fome e os próprios funcionários perceberam. No primeiro dia na hora do almoço, os funcionários perguntaram aos haitianos: “Vocês não trouxeram comida?” Eles disseram: “A gente já comeu.” No segundo dia uma moça, operária também, chegou para eles e disse: “Vocês não comeram.” Eles ainda tentaram resistir. Mas ela foi lá e junto com outros funcionários fizeram uma vaquinha compraram uma marmita para eles.  Foi averiguado que eles não tinham nada em casa, nem gás para cozinhar! Então os funcionários levaram essa questão para a direção da empresa que providenciou uma cesta básica. Não foi uma ação institucional, foram os funcionários que se sensibilizaram. Isso é generosidade. Então se o meu trabalho terminasse por aqui hoje eu diria pra você: “Poxa eu estou feliz da vida! ” (risos)

Muda Tudo: E como essas pessoas que o Instituto Ponte Social leva para as empresas se saem no trabalho?

Nelson Domingues: Tem um menino egresso da Fundação Casa, que trabalhou em uma das empresas que são nossas parceiras.  O desempenho dele foi notável! Isso porque é a oportunidade que ele tem na vida. A experiência que estou tendo com os egressos da Fundação Casa é a melhor possível. São os melhores funcionários que se pode ter porque eles abraçam a oportunidade e não querem largar. Porque se eles deixarem passar essa oportunidade, eles não têm mais nada.

MT: É a oportunidade da vida deles.

ND: Exatamente. Ele passa a ter dignidade porque vai ter um salário, vai poder sustentar a casa dele, vai ter um trabalho reconhecido. Então pra mim a palavra-chave de hoje, o que o mundo precisa, é de generosidade. As pessoas precisam pensar no próximo. Existem pessoas boas e não tão boas, mas os exemplos que eu tenho são só positivos.  Às vezes eu conheço as pessoas depois que faço a ponte e me emociono porque vejo a importância de quando se investe em alguém sem condições.  A gente só pode acreditar num mundo melhor se a gente acreditar na generosidade. Se eu fosse pela linha racional, cultural, talvez não empregasse ninguém, mas quando eu estendo a mão para o outro , quando vejo a vida de uma pessoa transformada, quando  a gente  muda a vida do outro, muda tudo! Dinheiro nenhum vai pagar isso.

MT: Existe alguma coisa que o poder público possa fazer para estimular a generosidade?

ND: O próprio poder público precisa ser o exemplo. O que é o oposto da generosidade? O egoísmo. E o que a gente tem visto na Lava Jato? O dinheiro que eles desviaram dá para 4, 5 gerações deles viverem muito bem. Não tem necessidade de todo este dinheiro. Então o primeiro passo é os políticos passarem a ter ética. O serviço deles deveria ser uma vocação. O que o político deve fazer é melhorar a vida das pessoas. Esta é a função do poder público, dar uma vida decente às pessoas, com saúde, educação, acesso à lazer. E isso tudo passa pela generosidade. Se eu não for generoso, vou ser egoísta. Não tem meio termo.

MT: Qual é a diferença entre ajudar e realmente impactar em larga escala?

ND: Existem os primeiros socorros, o sujeito precisa de trabalho, cesta básica.  Alinhamos isso primeiro com as ONGs, mas a gente faz um trabalho de advocacy  também. A gente procura estar integrado nas esferas que podem mudar a sociedade, lutando por políticas públicas para que o próprio governo possa melhorar a situação de vida dessas pessoas. Nosso trabalho não é fazer caridade, mas tornar o sujeito um cidadão para que ele possa exercer seus direitos.  Não é deixá-lo recebendo cesta básica para sempre.  Por isso a gente precisa fazer também um trabalho de conscientização, de influência… Eu preciso estar fazendo pontes, contatos, para poder tornar o sujeito ajudado em cidadão.

3 pessoas sentadas em um banco olhando um mural de fotos com várias pessoas de nacionalidades diversas
Foto:Pixabay

MT: Tem alguma dica para a pessoa ser mais generosa?

ND: Eu costumo indicar para todas as pessoas um trabalho voluntário. Comece adotando uma causa, mas não é só dar dinheiro.  Pode dar dinheiro, mas o interessante é você se envolver. O mais importante é a sua presença, o seu toque, o seu sorriso… O mundo seria muito melhor se todas as pessoas fizessem algum trabalho social. Tem gente que vai preferir trabalhar com idoso, outros com criança… Cada um tem uma paixão e isso é que é legal. Um pouquinho que faço aqui pode mudar a vida do outro. Uma das coisas que me marcaram quando eu estava fazendo psicologia foi um estágio que fiz em um hospital lá em Carapicuíba, na periferia.  Eu saía mal de lá por ver a dificuldade, a dor, a forma como as pessoas eram tratadas. Foi uma sensibilização. O dia em que você passa a olhar a dor do outro você se torna generoso. A generosidade é um hábito a ser praticado. A nossa tendência é ser egoísta, é sempre estar buscando o eu, eu, eu…

“Vale a pena ser generoso. As pessoas que eu conheço que são generosas são mais felizes.”

MT: Tem alguma forma de as pessoas participarem do Instituto Ponte Social, praticarem a generosidade?

ND: Bom, posso fazer uma ponte para alguém, que queira ser voluntário, com uma causa. Ponte é ponte, né?  (risos) Mas pode me procurar. Até mesmo se quiser só conversar sobre generosidade!

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