Garoto de 18 anos luta para empoderar jovens negros

Mesmo se quisesse, Gelson Henrique não passaria despercebido. O garoto de 18 anos, morador do bairro de Campo Grande no Rio de Janeiro, aluno da UFRRJ em ciências sociais, milita desde os 15 em defesa dos direitos dos jovens negros. Movido desde cedo por fortes ideais, Gelson impressiona pelo jeito como fala, firme e tranquilo, e pelo estilo como se veste, ousado e elegante.

Foto: Paulo Marcos

Tal como o personagem bíblico Sansão, que tirava de seus cabelos uma força sobre-humana, ele faz do seu super black-power um poderoso aliado na luta contra o racismo. “A sociedade quer nos convencer todo o tempo que cabelo duro é feio e eu digo que é lindo!” Essa confiança contagiante é só um pouco do carisma que Gelson Henrique espalha por onde passa e aqui no Muda Tudo não foi diferente. Com vocês, Gelson Henrique…

Como você se define?

Um jovem negro, que nem sempre tem muita oportunidade, mas com ânsia de mudança e até um pouco privilegiado.

Como assim, privilegiado?

Sempre estudei em escola pública, mas nunca em zona de confronto do tráfico. Eu pude frequentar a escola e tive uma estrutura familiar que me incentivava a estudar, que me fazia ver que o estudo é o caminho. Coisa que muitos não têm.

Qual é a formação dos seus pais?

Eles não fizeram faculdade. Meu pai trabalha com reciclagem em uma cooperativa e minha mãe tem formação técnica e atua na área de administração.

Você mora em Campo Grande, que fica a 53km do centro do Rio. Como é a sua relação com a cidade?

Eu faço valer meu direito de ocupar a cidade. Eu vou pra Laranjeiras, vou pra Madureira, vou pra onde for porque eu tenho direito de ir e vir, mesmo o sistema querendo por catracas. Por exemplo, nós nos conhecemos em um evento aqui na Glória, que terminou às 10 horas da noite. Quando cheguei no edifício garagem já não tinha mais ônibus, tive que andar até a Candelária para conseguir um. Eu fui chegar em Campo Grande só às 2 da manhã. Imagina o que é isso para um trabalhador que precisa encarar uma distância como essa todos os dias? Essa pessoa está sendo excluída da sociedade. É o que acontece com a galera da periferia, da zona oeste… Se eu tiver que vir pra Zona Sul tenho que sair de casa uma hora e meia antes e enfrentar uma série de barreiras.

Quando você percebeu que existiam essas “catracas?”

Quando eu comecei a entender quem eu era. Por exemplo, eu já pensei em fazer engenharia ambiental, mas por conta de dinheiro. Hoje em dia eu vejo que sou muito mais do que isso, quero fazer ciências sociais porque eu vou conseguir impactar de fato a sociedade. Em 2014 eu comecei a fazer um curso no Antares, em Santa Cruz, da FIA (Fundação para Infância e Adolescência) que prepara jovens da periferia para o mercado de trabalho. Eu fiz o curso por três meses e em dezembro fui chamado para trabalhar no SEASDH (Secretaria de Estado de Assistência Social e Direitos Humanos do Rio de Janeiro). Em fevereiro teve uma reunião do Conselho Estadual da Criança e do Adolescente onde os jovens debatiam políticas públicas e seus direitos pela Resolução 159 do CONANDA (Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente) na qual o jovem tem de ser visto como protagonista. Eu comecei a saber dos meus direitos e pensei: Mas por que só estou sabendo disso agora que estou no mercado de trabalho? Comecei a participar de conferências e entendi que eu tinha que ocupar a cidade, mesmo sabendo que iam colocar barreiras, mas esse é meu direito e vou atrás. Mas não são todos que têm essa consciência. Muitas pessoas pensam que o centro do Rio e a zona sul da cidade são, tipo, uma parada “longe,” que não é um lugar pra elas. Eu falo com elas: Não! Lá é lugar pra você também, você tem o mesmo direito de ocupar a cidade.

 

Foto: Paulo Marcos

Como você vê o seu papel na militância contra o racismo?

Como uma representatividade. A pessoa me vê e pensa: “Pô, olha onde ele está! Se ele pode, então eu posso também.” Este é o meu desejo, mostrar pras pessoas que elas também podem. E é conversando que eu desperto isso nelas. Eu falo assim, “Galera, não é porque você é preto e o seu cabelo é duro que você é feio. Não é porque você tem nariz largo que você é feia. Vocês têm que se assumir. É a nossa raça!  É muito difícil você ver negros em destaque. Quando um negro começa a ficar em evidência, isso mostra pros outros que eles também podem. Mesmo com todo atraso social, pode. Não vai ser fácil, mas você pode conseguir, tendo a oportunidade, coisa que muitos não têm. E é o que eu quero trabalhar pra fazer, para dar oportunidade para outros.

Você esteve na Bélgica no ano passado, como foi essa viagem?

Eu fui convidado para representar o Brasil, junto com mais 11 jovens do estado do Rio de Janeiro, pra falar sobre uma ONG aqui do Brasil chamada CHEIFA (Central Humana de Educação, Ideias e Formação Alternativa), que atua no Jardim Gramacho com projetos para famílias e crianças. Além da atuação da CHEIFA, falamos também do outro lado do Brasil, sem ser aquele dos cartões postais. Falamos, por exemplo, sobre o lixão de Gramacho, que foi supostamente fechado. Cada um dos 12 jovens escolhia um tema para falar. Eu escolhi falar sobre direitos humanos e o genocídio da juventude negra, que são as áreas que eu milito. Então foi uma troca muito grande porque nós falamos sobre a realidade do Brasil, coisa que eles não conheciam, sabe? Eu começava assim, Quando eu falo em Brasil o que vocês imaginam? Aí eles respondiam, “Carnaval, praia, Cristo, futebol!” Aí eu mostrava que tem muita coisa por trás disso. As violações dos direitos que o sistema impõe aos jovens negros. Aí eles, os jovens belgas, começavam a perguntar, “Como posso ajudar?”. Foi muito importante, fico ainda muito emocionado quando lembro disso…

E o que se pode tirar de melhor desta conexão?

Primeiro ponto é poder dar visibilidade para o que está acontecendo no Brasil. Como pode os 77% de homicídios de jovens negros não serem divulgados? Tem mais morte no Brasil do que no Iraque, em guerra. Então é muito, muito importante falar disso para se encontrar uma solução.

Você consegue imaginar um caminho para uma solução?

Eu parto de quatro pontos: educação, cultura, lazer e oportunidade. A educação dentro das favelas é precária, as crianças não conseguem ir para a escola porque está tendo troca de tiros. Quando eles não têm como sair daquilo, vão achar que o melhor caminho é o tráfico. Muitos nem sabem o que é uma faculdade e, se sabem, não almejam estar numa porque acham que não podem, que nunca vão conseguir chegar a uma faculdade. Mas é claro que conseguem, se tiverem oportunidade. Aí volta aquela história, preciso trabalhar. Aí você vai para uma entrevista de emprego e tem um jovem da Zona Sul branco, com cabelo liso, uma “boa aparência,” entre aspas, né? E vem um jovem negro com a aparência dita de “favelado,” aquela coisa ruim, que está à margem da sociedade, e precisando daquilo. Os dois estão precisando, ok, mas para quem o contratante vai dar a vaga? Com certeza, para o bem da imagem da empresa, vai ser para aquele jovem da zona sul, enquanto que o outro que precisava realmente da vaga, não vai conseguir e vai acabar muitas vezes entrando pro tráfico.

Mas então o que deveria ser feito efetivamente?

Criar oportunidades com projetos nas áreas carentes, dentro desses espaços. Os projetos que existem não são suficientes, são iniciativas pequenas. Falta o governo atuar, mas na verdade ele não quer mudar essa realidade. Pra ter uma mudança ampla, precisaria vir do poder público. Ou de alguém com dinheiro que quisesse investir nisso. Sabendo que a mudança que vem através da educação não é algo imediato, a curto prazo. Tem que ter persistência. Não adianta construir uma escola e pronto, a mudança vai acontecer. Não é assim. É um projeto pra longo prazo, mas que vai funcionar.

Foto: Paulo Marcos

Gelson, você é um dos 100 jovens que estão ajudando a prefeitura do Rio de Janeiro a pensar a cidade daqui a 50 anos. Como está sendo esse trabalho?

Bom, eu estou ou estava, ainda não sei como vai ficar isso, como conselheiro da juventude do município, mas agora não sabemos como vai ficar o conselho com a entrada do Crivella. Este conselho que reúne jovens de várias áreas do Rio foi criado pelo LAB Rio, que era o laboratório do gabinete do prefeito Eduardo Paes, que se preocupou bastante com a paridade de gênero, recorte geográfico de pessoas de zona sul e zona oeste… Mas agora está em suspenso. Nós estamos querendo divulgar nossos pareceres dos GTs (grupos de trabalhos) das áreas de finanças, educação, desenvolvimento social… Estamos procurando divulgar, mas até agora não teve como.

Me conta uma história que tenha marcado sua vida…

A viagem para a Bélgica foi um momento marcante. Me fez pensar o que eu queria da minha vida. Teve um dia, quando eu estava lá, que eu botei minha cabeça no travesseiro e não conseguia dormir porque só pensava no que eu queria realmente da minha vida. E eu descobri que quero fazer a diferença. Mas para fazer a diferença não é fácil. Aí volta a história da oportunidade. Eu cheguei ao Brasil cheio de gás, vou fazer isso e aquilo, comecei a procurar por uma porta, mas todas estavam fechadas. Até hoje eu não consegui entrar em um projeto, uma ONG… Mandei currículo para vários lugares, mas nessa época de crise, o primeiro lado a ser cortado é o social. E quando eu estava lá na Bélgica eu pensava, quando eu chegar no Brasil, vou mudar o mundo! Foi um pouco frustrante, mas é algo que está me dando mais gás para continuar.

Quando você fala em impactar, onde você imagina que possa atuar?

Em várias partes, nas favelas, com pessoas que vivem em lugares vulneráveis, que não conseguem enxergar este outro lado da vida.

Você acha que mudou algo em relação ao preconceito racial?

Mudou um pouco, mas ainda falta muito. Uns dias atrás, a página do Alerta Leblon postou fotos de pessoas negras na praia falando que elas eram meliantes… e sem provas. Chovem comentários racistas nas redes, um ódio tão grande que é muito complicado você pensar que melhorou alguma coisa. Melhorou no empoderamento das pessoas, mas a sociedade não mudou tanto assim.

Como você espera ver o Rio daqui a 50 anos?

Com oportunidades para todos. Oportunidade é o que muda a vida. Muda muito! Eu falo isso porque o Eduardo Caon, da TV Novo Degase, me ajudou muito. Quando você oferece oportunidade para uma pessoa, ela não vai querer ir para o outro lado. Eu tenho uma amiga que foi interna do Degase (Departamento Geral de Ações Sócio Educativas) e hoje é uma fotógrafa. Não é só ela, diversas pessoas que passaram por lá deram a volta por cima, mas as pessoas preferem dizer que sai pior de lá, mas só saem se não tiver oportunidade. Então é isso, eu quero ver mais oportunidade para todos no Rio de Janeiro.