Um herói para cães abandonados

Para todo problema existe uma solução. Certo? Errado. Para todo problema existem MUITAS soluções dadas, preferencialmente, por muitas pessoas. O arquiteto paulista Guilherme Agnew é um exemplo de personagem que, agora, mais do que nunca, precisa da ajuda dos outros para solucionar um problema que aumentou – e muito – com a crise no Brasil: o abandono de animais.

 

Guilherme abraçando um cachorro no canil Dog's Heaven
Guilherme abraçando um cachorro no canil Dog’s Heaven foto: Katia Coronato

G: O problema maior é a crise econômica. Um cachorro grande come 25 quilos de ração por mês. Se a pessoa está desempregada, ela pensa: “ou eu me alimento ou alimento o cachorro”. E aí não tem jeito, ela solta o animal. Eu ando agora na rua e vejo até cachorro de raça abandonado. O problema de abandono de animais é muito grave.”

A Organização Mundial de Saúde estima que, no Brasil, existem hoje 30 milhões de animais abandonados, sendo 10 milhões de gatos e 20 milhões de cães. Segundo a OMS, em cidades de grande porte, para cada cinco habitantes há um cachorro. E 10% deles estão abandonados.

cachorro olhando por trás de cerca de arame
Canil Dog’s Heaven foto: Katia Coronato

Guilherme adotou o primeiro cachorro em Petrópolis, região serrana do Rio, em 2004. Menos de dois anos depois, já cuidava de 8 cães. Chegou a ter 45 animais em casa… Aí, não teve mais jeito. Alugou um terreno e construir um abrigo. O lugar escolhido foi Secretário, também na região serrana. Desde 2012, o Dog’s Heaven existe como entidade filantrópica e hoje abriga mais de 180 cães (fora o gatil que começou a funcionar em 2014, quando foram acolhidos os primeiros felinos).

jardim do canil Dog's Heaven - contra o abandono de animais
jardim do canil Dog’s Heaven com árvores e baias para cachorros abandonados

Ao longo dos anos, Guilherme já conseguiu adoção para mais de 200 animais e financiou mais de 350 castrações.

MT: Como o poder público pode ajudar?

G: O poder público deveria mandar castrar todas as fêmeas em situação de abandono. E isso está na lei, mas o problema é conseguir que a lei seja cumprida. Existe um projeto de um castramóvel, um veículo que vai de bairro em bairro castrando animais. Só que isso sai muito mais caro do que se fizessem credenciamento de clínicas nos bairros, para castração dos animais. Hospital, por exemplo, também não funciona, porque quem não tem carro não tem como levar o animal até um hospital na cidade. Tem que ser um projeto de credenciar pelo menos uma clínica em cada bairro.

(O presidente Michel Temer sancionou este ano a lei que cria a política de controle de natalidade de cães e gatos. O programa de esterilização será realizado depois de um estudo para identificar as localidades com superpopulação de animais, com prioridade para comunidades de baixa renda.)

Enquanto conversamos passeando pelo abrigo, Guilherme vai contando a história de cada um dos cachorros, os quais chama pelo nome e sabe de todos os detalhes.

cachorros olhando por trás de cerca de arame
Foto Canil Dog’s Heaven: Katia Coronato

G: “Essa aqui ia ser sacrificada por não andar mais. Com 5 ou 6 sessões de acupuntura ela voltou a andar e hoje é uma encrenqueira: já caça ouriço e tudo… um doce de cachorro… Tem cachorro que já está aqui comigo há mais de 6 anos, como este aqui, o Beethoven…

… o Guilherme vai contando – entre um carinho e outro -,  mostrando as baias, cada uma com média de 3 cachorros, identificados por placas com o nome de cada um deles.

canil com nome dos animais escrito na parede: tudo muito organizado
canil com nome dos animais escrito na parede

G: Todos os animais que chegam são vacinados, vermifugados e as fêmeas são castradas. Eu pago cerca de 150 reais por castração.

As histórias de abandono de animais que vamos ouvindo são infinitas e difíceis de acreditar:

G: Eu cheguei a fazer uma área para hospedagem, mas não deu certo, porque as pessoas pagavam o primeiro mês de alojamento e depois desapareciam. Eu tenho uns 15 cães aqui que são hóspedes abandonados.

MT: Mas os tempos estão mudando, não é? Eu vejo que as pessoas estão mais conscientes da necessidade de ajudar. Eu te pergunto se as pessoas, no seu caso, estão contribuindo mais, fazendo mais doações para?

G: Ultimamente melhorou sim: hoje eu consigo uma ajuda de mais ou menos 25% do total que eu gasto, que passa de 20.000 reais por mês (todos os custos podem ser vistos numa planilha no site www.dogsheaven.org.br). Eu já vendi duas casas em São Paulo para manter isso aqui. Por mês, são 3 toneladas de ração, castrações, exames laboratoriais, medicamentos, pessoal, água, luz…

MT: As pessoas colaboram comprando ração, por exemplo?

G: A melhor maneira de ajudar é fazer doação de dinheiro e não doar ração. Isso porque, como eu compro direto das fábricas e distribuidores, pago mais barato. Assim, eu otimizo os recursos doados. Se cada um contribuir com 20 reais por mês ajuda muito. O que soma é o pingo d’água.

mulher abraçando cachorro
Foto: katia Coronato

MT: E voluntários? Pessoas aparecem por aqui para ajudar na mão de obra?

G: Muito pouco. Outro dia uma professora de banho e tosa juntou os alunos e eles passaram o dia aqui dando banho nos cachorros. Já é alguma coisa. Mas não tem nenhum voluntário que venha uma vez por semana, ou mesmo uma vez por mês.

Logo ele vê um cão vestido e se lembra de casos de solidariedade que valem a pena serem contados:

G: Eu compro esse tecido soft e uma senhora em Pedro do Rio costura sem me cobrar nada. Com o frio os cães mais idoso sofrem. As roupinhas ajudam muito.

cão abandonado com roupinha de inverno feita por uma doadora
cão abandonado com roupinha de inverno

E, por sorte, no meio da nossa visita apareceu um morador da região, Juarez Felipe, pronto para adotar um cão. “Eu nunca compro, sempre pego cachorro abandonado e sempre gosto de ter dois. Um cachorro meu morreu recentemente e por isso quero adotar outro. Eu gosto demais, é bondade do coração e isso a gente não ensina, isso nasce com a pessoa. Eu quando venho aqui tento não escolher porque sempre tem aqueles que não vão ser escolhidos nunca… Deixo que me escolham.”

Juarez sai de lá pronto para adotar a Bolota. Um dia lindo em Secretário com final feliz… como deveria ser sempre em um lugar chamado “Paraíso dos Cachorros”.

Na porta do canil, cartaz avisa que abandonar animais é crime ambiental
cartaz com dizer: abandonar animais é crime ambiental

Maneiras de ajudar:

  1. ser voluntário (aparecer para dar uma mão ao Guilherme e seus assistentes, fazer um carinho nos peludos …)
  2. ser doador de dinheiro (qualquer quantia / ver instruções no site http://dogsheaven.org.br)
  3. ser padrinho de um animal (custo médio de 150,00 mensais)
  4. financiar castrações (custo unitário de 150,00)
  5. ajudar a divulgar o projeto nas redes sociais, principalmente Facebook e Instagram. Isso ajuda muito e muda tudo!
  6. e a melhor de todas: adotar um animal!

contato:

Tel. (24) 9266-3038 / 8831-6577 / 9811-3131

[email protected]

Banco Itaú
Agência 8062
Conta Poupança 16395-4/500
CNPJ: 18.667.467/0001-55
Dog’s Heaven Entidade Filantrópica

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