Como nasce um candidato para mudar o Brasil?

Muita gente, descrente com a política brasileira, diz que não vai votar nas próximas eleições, em outubro. Pessoas que afirmam que não existem bons candidatos e que não adianta votar porque nada vai mudar.

Diante de toda essa descrença, o Muda Tudo decidiu entrevistar algumas pessoas que estão emergindo no cenário eleitoral com novas propostas – e muita preparação – para entrar em campo. Não estamos fazendo campanha para nenhum deles. Estamos procurando entender (e mostrar) o que pensam alguns desses novos candidatos, que estão sendo apoiados por movimentos que confiam em sua capacidade de governança para mudar o Brasil.

A engenheira ambiental Juliana Cardoso, de 29 anos, é pré-candidata a deputada federal. Ela é do município de Suzano, no estado de São Paulo, e vai concorrer pelo partido da República. Suzano tem cerca de 300 mil habitantes e fica a cerca de 35 km do aeroporto internacional de Guarulhos, na região conhecida como Alto Tietê.

Juliana Cardoso, engenheira ambiental e pré-candidata a vereadora em Suzano, SP
Juliana Cardoso, engenheira ambiental e pré-candidata a deputada federal por SP

Juliana Cardoso se formou em Engenharia Ambiental pelo Centro Universitário Luterano de Manaus, fez pós-graduação em Administração de Empresas na Fundação Getúlio Vargas é mestre em Administração Pública, pela Universidade de Columbia, em NY, e mestranda em Direito Público, pela Escola de Direito da FGV.

Juliana faz parte da Rede de Ação Política pela Sustentabilidade – RAPS, constituída em 2012 como um espaço cívico de discussão dos principais problemas do país em um ambiente político suprapartidário. A iniciativa apoia líderes capazes de colaborar na transformação do Brasil em um país mais próspero, solidário, democrático e sustentável. Juliana também é fellow da Fundação Lemann, onde recebeu, em parceria com a RAPS, bolsa de estudos para seu mestrado em Columbia e ainda apoio para se tornar uma líder pública muito bem preparada. Além disso, ela é co-fundadora do movimento de renovação política Brasil 21 e membro do movimento Agora! . Para completar o currículo, Juliana Cardoso é global shaper do hub São Paulo, uma iniciativa do Fórum Econômico Mundial, que reúne jovens líderes em diversos polos urbanos do mundo para desenvolver projetos que gerem impacto positivo em suas comunidades. E ainda acaba de terminar o programa de capacitação política RenovaBR (que durou todo o primeiro semestre deste ano). A iniciativa selecionou cerca de 100 pessoas entre mais de 4 mil inscritos de todo o país, das mais diversas idades, profissões e partidos.

No setor privado, Juliana trabalhou com gestão ambiental em Manaus e em São Paulo.  No setor público, foi secretária de Meio Ambiente e Recursos Naturais da prefeitura de Poá, município de São Paulo. E ela ainda não fez 30 anos!

Conversamos com Juliana na sede do polo de inovação social Civi-co, em Pinheiros, São Paulo. Que lugar poderia ser melhor?

Juliana Cardoso, engenheira ambiental e pré-candidata a vereadora em Suzano, SP
Juliana Cardoso em entrevista ao Muda Tudo, no Civi-co

Muda Tudo: Juliana, quando você soube que queria entrar para a política?

Juliana Cardoso: Aos 7 anos de idade (risos). Naquela época eu falava que queria ser presidente da República. Mais ou menos quando eu tinha essa idade eu entrei em um lixão e vi crianças comendo lixo. Então eu perguntei para o meu pai o que estava acontecendo e ele me disse: “Ju, um dia você pode mudar isso.” Agora eu vejo que foi essa a primeira conexão que eu fiz com a política.

Muda Tudo: Você se formou em engenharia ambiental em Manaus. Por que lá e não em São Paulo?

JC: Porque eu poderia fazer faculdade na selva de pedra ou na selva de verdade, na Amazônia. Foi a primeira decisão importante da minha vida: querer trabalhar com impacto e estar onde as coisas acontecem. Eu tinha passado na USP, mas optei por Manaus, onde morei por 5 anos, trabalhando na área de gestão de resíduos e estudando. Eu tinha muita relação com comunidades e eu retomei minha decisão da infância de fazer politica. Em Manaus eu via prostituição infantil, via pais vendendo filhos para gringos e dizia para mim mesma: “todo mundo vê que isso está acontecendo e ninguém muda.” Aí eu decidi entrar para a política. Isso foi em 2010.

Muda Tudo: E as pessoas te incentivaram na sua decisão?

JC: O Brasil estava vivendo o escândalo do Mensalão e as pessoas diziam: política não é para você, Ju.” E eu acabei desistindo. Em 2012, eu voltei para SP e tive outra oportunidade de sair vereadora em Suzano. E veio a segunda decepção: a chapa inteira pela qual eu seria candidata a vereadora caiu, por uma questão partidária. Em 2014, aconteceu o Petrolão, mais um desestímulo. Mas mesmo assim eu resolvi tentar e me candidatei a deputada estadual, conseguindo mais de 10.000 votos (para ser eleita precisaria de uns 40.000). As pessoas me ouviram e viram esperança em mim.

MT: E aí? Como você não foi eleita decidiu continuar a trabalhar no setor privado?

JC: Não. Em outubro mesmo eu tive a oportunidade de ir para a diretoria de meio ambiente na prefeitura de Poá, ao lado de Suzano. E lá eu vi que tinham pessoas boas no governo e que a gente precisava de ainda mais pessoas boas.

MT: O que você conseguiu durante essa gestão?

JC: A gente conseguiu implementar o plano de resíduos sólidos, melhorar a arborização na cidade, conseguiu reduzir muito o consumo de água, fazer programa de educação ambiental em toda a rede pública, construir parcerias com cooperativas de reciclagem … Eu estava fazendo um trabalho técnico, não de politicagem, e vi que era possível fazer a diferença no governo. Mas eu queria causar mais impacto. Você estando no governo, uma decisão que você toma influencia 100, 200 mil habitantes num piscar de olhos.

Juliana Cardoso, engenheira ambiental e pré-candidata a vereadora em Suzano, SP

MT: E você sentiu que nesse momento as pessoas passaram a te estimular a fazer parte da política, diferentemente de alguns anos atrás?

JC: O mestrado que eu fiz em Columbia foi pago pela Raps e pela Fundação Lemann. O que eu precisava dar em troca era estudar muito e aplicar o meu conhecimento no Brasil, provocando impacto positivo. Em agosto de 2017, a Fundação disse: é o momento de nós fazermos a diferença e um programa de formação de líderes públicos foi criado. Foram selecionadas 20 pessoas para se qualificar, estudando segurança pública, saúde, educação e fizemos um curso sobre integridade e valores na política, na Universidade de Oxford, na Inglaterra. E a gente recebia uma bolsa para poder se dedicar integralmente, sem ter que trabalhar. Esse foi o primeiro grande estímulo. E aí passaram a surgir os movimentos de renovação política e eu passei a fazer parte do Agora!

Muda Tudo: Explica o que é o Agora!

JC: É uma espécie de think-tank político onde pessoas de todas as áreas (setor privado, público, academia, …) discutem os problemas do Brasil e propõem modelos de soluções baseados em cases de sucesso em políticas públicas. São quase 100 pessoas que realizam encontros mensais. O movimento não lança candidaturas, mas alguns membros, cerca de 20%, estão saindo candidatos. Esse foi outro grande estímulo.

Muda Tudo: E quando surgiu o RenovaBR?

Juliana Cardoso: O Eduardo Mofarrej (criador do RenovaBR) é membro do Agora! e pensou em como fazer para que essas pessoas não perdessem o fôlego e não desistissem da política. Ele teve a ideia de preparar os candidatos, de dar ferramentas teóricas e práticas, além de uma bolsa e, para isso, criou uma escola de formação de excelência. Nós tivemos aula de Teoria Geral do Estado, Direito Constitucional, funcionamento do Legislativo, recebemos toda a estrutura básica para formar um bom candidato. Fora isso, o RenovaBR nos ensinou a fazer uma campanha mais barata e mais competitiva, usando redes sociais, ferramentas de financiamento coletivo … A formação começou em janeiro e terminou em junho, com 133 líderes formados. Desses participantes, grande parte vai se candidatar, por diversos partidos.

Muda Tudo: Eram quase 5.000 inscritos e apenas cerca de 100 entraram para a escola RenovaBR. Quais foram os critérios para essa seleção?

JC: Ética, transparência, combate à corrupção, redução de privilégios da classe política, compromisso com reforma. Essa pauta tinha que ser defendida por todos esse 133 líderes.

Juliana Cardoso, engenheira ambiental e pré-candidata a vereadora em Suzano, SP

Muda Tudo: E agora, qual o grande desafio?

JC: Primeiro a gente precisa que as pessoas votem e os jovens não querem votar. Sem eles a gente não consegue renovação. 1/3 do eleitorado brasileiro é de jovens. O segundo desafio é qualificar o voto, não deixar que mais do mesmo esteja lá. E o terceiro é participação: a maioria das pessoas, na verdade quase 90%, não se lembra em quem votou. Se não lembra em quem votou, como vai cobrar o que está ou não sendo feito?

Muda Tudo: Não é preciso que apareçam apenas novos candidatos, certo? Mas novos eleitores também.

JC: Isso. As pessoas dizem: “Esse Congresso é uma vergonha!” Mas quem votou neles? É uma reflexão que tem que acontecer de ambos os lados. Poucas pessoas sabem a diferença entre os 3 poderes, sabem quais são as funções efetivas de um deputado, de um senador, …

Muda Tudo: E como a gente consegue ensinar, formar esses eleitores?

Juliana Cardoso: A mídia tem um papel essencial para tornar as pessoas mais conscientes da importância do voto. A gente precisa levar educação política para as escolas. E nós, novos candidatos, temos essa missão também de levar informação para as pessoas e construir um público mais crítico.

Muda Tudo: Qual a sua plataforma eleitoral?

JC: As minhas bandeiras são basicamente o que eu sou: jovem, mulher e uma profissional ligada à pauta da sustentabilidade. Meu primeiro grande foco é gerar oportunidades para os jovens da periferia se qualificarem e entrarem no mercado de trabalho de suas regiões. Se a gente quer mudar o futuro, precisa dar autonomia para eles. Meu segundo foco é a mulher, que representa mais da metade do eleitorado e que tem menos de 10% de participação política. E o outro é o meio ambiente. Somente 1.8% do PIB é investido em infraestrutura no Brasil e só para manter a infraestrutura existente seria preciso de 5% de investimento. A falta de infraestrutura é muito grande.

Juliana Cardoso, engenheira ambiental e pré-candidata a vereadora em Suzano, SP

Muda Tudo: O que é preciso para ser um bom político no Brasil?

JC: Resiliência e integridade. Nós temos que entender que nós somos pontes. O que a gente começar a construir agora é o futuro da política no Brasil. A gente precisa entender essa transição, porque a velha política ainda vai existir quando estivermos lá.

Muda Tudo: A gente precisa de um salvador da pátria?

JC: Não! A gente precisa de envolvimento de todas as pessoas. É um trabalho de formiguinha, não existe uma grande revolução e sim pequenas mudanças. Se a gente quer mudar o nosso país, todo mundo tem que participar, entender que a política é de todos nós, começar a falar de mais Brasil e menos Brasília. E a gente precisa liderar, por exemplo. A gente pode ter um gabinete transparente, que seja eficiente, e utilizando menos verbas. Se um deputado faz isso daqui a pouco são 20 fazendo. E então a gente mostra que é possível mudar tudo.

Para saber mais sobre a candidata, o site dela é www.julianacardoso.com.br

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