Doação, um ato que pode mudar o Brasil

O trabalho dela é convencer as pessoas que elas podem mudar o nosso país por meio de doações financeiras. E com que know-how ela realiza essa missão! Saímos da entrevista prontos para tirar as mãos do bolso (e o dinheiro da bolsa) e ajudar as mais diversas causas sociais e ambientais brasileiras. Ela é Vivian Fasca, diretora de Planejamento e do núcleo de fundraising da agência Repense, no Rio de Janeiro.

Uma fera da Comunicação, Vivian Fasca trabalha para organizações não-governamentais gigantes, como Médicos Sem Fronteiras, Action Aid, Plan International, Anistia Internacional e Greenpeace.

A Repense é uma das únicas agências brasileiras que fazem esse trabalho junto ao Terceiro Setor, formado por entidades da sociedade civil com fins públicos e não-lucrativos. Entrevistamos a Vivian na sede da agência, na Gávea, Rio de Janeiro.

A especialista em comunicação Vivian Fasca, na entrada da agência Repense, no Rio
A especialista em comunicação Vivian Fasca, na entrada da agência Repense, no Rio

MT: Vivian, como é a atuação do Terceiro Setor no Brasil?

VF: Um levantamento recente dava conta de mais de 300.000 organizações no país, entre pequenas ONGs locais e grandes organizações internacionais que atuam no mundo todo, como Médicos Sem Fronteiras, Action Aid, Anistia Internacional, Oxfam, Greenpeace, … A maioria dessas grandes organizações nasceu nos Estados Unidos ou na Europa, muitas há 60 anos, e chegaram ao Brasil no momento em que o país estava em outra situação socioeconômica (década de 80/90). Muitas se estabeleceram aqui investindo no Brasil como um país que precisava receber recursos e projetos, mas não havia a consciência de que se podia captar recursos. Por volta de 2005, muitas dessas organizações começaram a ver que os brasileiros também poderiam contribuir financeiramente e que seus escritórios no Brasil poderiam ser autossustentáveis. Começou então um movimento muito grande de organizações vindo para cá e montando operações, contando com pessoas físicas daqui.

MT: E como é o brasileiro doador? O nosso povo é considerado muito solidário.

VF: Essa coisa da solidariedade brasileira aparece muito na relação direta e nas grandes tragédias. Existe generosidade, mas as pessoas precisam ser provocadas.

MT: Fora isso não existe a cultura da doação, certo?

VF: Eu diria que, para o potencial do Brasil, ainda é muito pequeno o número de doadores. Eu digo isso em números absolutos, o número de pessoas que fazem parte da classe A/B e em condição de doar.

Nossa capacidade é maior do que a de muitos países europeus.

Por exemplo, a Bélgica é considerado o país com o maior valor per capita de doação individual, mas tem uma população muito pequena perto do Brasil.

Mulheres dando presentes para crianças em uma tenda
Foto: internet

MT: Falta cultura ou falta incentivo do governo?

VF: A questão dos incentivos fiscais não serem significativos é um entrave, o problema passa por políticas públicas, sem dúvida, mas eu acho que não é só isso. Eu acho que falta mentalidade. A gente precisa dar uma virada.

A filantropia tem que permear a sociedade como um todo. O conceito de filantropia já está muito mais disseminado no Brasil, mas ainda temos muito chão pela frente.

MT: O que precisa ser feito para que essa mudança aconteça?

VF: Eu acho que a mudança já está acontecendo. Mas como tudo no Brasil, a dimensão é continental, não aparece o suficiente na mídia e nós ficamos com a sensação de que esta mudança não esta acontecendo. Hoje existe uma invasão de notícias negativas muito grande e parece que o Brasil está parado, preso nesta teia de corrupção, violência, … As iniciativas (do bem) ainda ocupam muito pouco espaço na mídia, um espaço muito tímido.

Tinha que ter um espaço muito maior para a agenda da sociedade civil.

MT: Mas as mudanças estão acontecendo?

VF: Sim, eu considero que as coisas estão acontecendo, talvez não na dimensão necessária para os desafios do Brasil. Espaço para mudar tudo é o que não falta neste país.

MT: Sim, verdade, e o papel das ONGs é fundamental nessa mudança. Mas existe uma desconfiança com relação ao trabalho dessas organizações…

VF: A questão da confiança e da credibilidade é um problema grave no Brasil. Neste mar de corrupção que a gente vem vivendo há décadas, a palavra ONG acabou queimada em função de vários escândalos ligando políticos, corrupção e ONGs. As organizações brasileiras sofrem mais com a questão da credibilidade, por isso as ONGs internacionais acabam ficando mais protegidas.

Dois meninos, um olhando para a câmera
Foto: internet

MT: Fora que um estudo sobre o perfil do doador brasileiro, feito pelo IDIS, Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social, em 2015,  mostra que além da falta de dinheiro, o brasileiro argumenta muitas vezes que a solução para os problemas sociais tem que vir do governo, que é responsabilidade do governo. Uma visão bastante paternalista, tipicamente latino-americana.

VF: Há uma parcela muito grande da população que acha que está pagando imposto e que o governo tem que fazer tudo. E não é bem assim.

As sociedades humanas que mais se desenvolveram no mundo se desenvolveram apoiadas por uma sociedade civil atuante, participativa.

Só com o governo não vai mudar. Nós somos pouco politizados e exercemos pouco a cidadania.

MT: Em relação ao investimento social privado. Essa forma de doação aumentou?

VF: O investimento social privado melhorou muito no Brasil mas ainda não é tão significativo em termos percentuais como em países maduros. Sem falar que o ISP ainda tem uma agenda muito voltada para melhorar a imagem das empresas e voltada para o interesse mais restrito da atuação daquela indústria, como comunidades em torno de fábricas, … Causas como educação e meio ambiente são a preferência do mercado corporativo. Educação porque tem a ver com social e com qualificação de mão de obra. Determinadas causas que não têm esse apelo, como direitos humanos, acabam sem ter tanta atratividade para o investimento social privado. Saúde também é mais difícil.

Para a dimensão do Brasil, para a quantidade de empresas que a gente tem aqui, o mercado corporativo brasileiro ainda não foi despertado o suficiente. Existem iniciativas maravilhosas, mas ainda caminhamos pouco. O empresário – em sua totalidade – ainda não enxerga a importância de devolver para a sociedade o que conquistou. Eu acho que esse mindset ainda tem que mudar no Brasil. Está mudando…

MT: Voltando a falar sobre o Terceiro Setor. Existem formas diferentes de atuação, certo?

VF: Isso. Existem as organizações que trabalham com ativismo, como Greenpeace e Anistia Internacional. E existem as organizações que trabalham em projetos como a Médicos sem Fronteiras, no Haiti, que oferece serviços de saúde.

MT: E como funciona o advocacy no Brasil?

VF: Advocacy é trazer para a pauta da mídia causas que precisam ser discutidas. E existe um movimento muito grande neste sentido. Causas como direitos humanos, igualdade de gêneros, casamento infantil, racismo, homofobia, violência contra a mulher, etc., que começam a aparecer de maneira sistemática nos meios de comunicação. Esse é um trabalho que o Terceiro Setor também faz, defender determinadas causas e temas.

Mãos fazem carinho em cachorro (em close)
Foto: internet

MT: São muitos desafios, mas qual seria, na sua opinião,  o caminho mais efetivo para mudarmos o Brasil para melhor?

VF: Eu acho que educação é a grande chave para a gente sair do atoleiro em que a gente está, para diminuir desigualdade, reduzir criminalidade e violência, para ter perspectivas de uma maneira geral como país.

Educação e cidadania são os dois motores que, se a gente turbinar, vamos conseguir fazer a transformação.

MT: Mas isso é um trabalho de longo prazo …

VF: Eu não acredito que eu vá ver a transformação gigante que a gente precisa. Talvez meus filhos, meus netos vejam. Eu acho que este conceito de cidadania só vai começar a acontecer de verdade com a mudança geracional.  Eu sou otimista no sentido de achar que as coisas vão melhorar, mas sou realista ao dizer que vai demorar. Tem chão pela frente. Mas sabe aquele ditado…

Uma andorinha só não faz verão? Não é bem assim… Uma andorinha só faz sim um verão!

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