Sérgio Besserman: “conhecimento muda tudo”

“Conhecimento Muda Tudo.” Quem diz isso, com muita propriedade, é o economista Sérgio Besserman Vianna, um dos maiores intelectuais brasileiros e presidente do Jardim Botânico, no Rio de Janeiro. Conversamos com Besserman sobre passado, presente e futuro. Sobre o Rio de Janeiro, a América Latina e o mundo. Sobre o local e o global. Ecologia e política. Economia e filosofia. Afinal, falar pouco com Besserman é impossível, diante de tamanha trajetória e de tanto conhecimento.

Sérgio Besserman foi presidente do IBGE durante o governo Fernando Henrique Cardoso, foi presidente do Instituto Pereira Passos, no Rio, e hoje, além de presidente do Instituto Jardim Botânico, é também professor da PUC- Rio e membro do conselho de organizações como WWF, Conservation International. E por aí vai…

Muda Tudo: Besserman, em uma de suas colunas para o jornal O Globo, você escreveu que “a esperança precisa vencer o vazio de ideias”. Será que não existem boas ideias por aí, que não conseguem ser implementadas por causa da governança pública brasileira?

Sérgio Besserman: A capacidade de a sociedade brasileira se agregar em torno de ideias e transformar a realidade tornou-se, de fato, muito pequena. E existe um problema global. O (sociólogo polonês Zygmunt) Bauman chamou de interregno (entre reinos), um vazio de narrativas. A história como se desenrolava no século XX tinha duas narrativas que morreram. A ideia de que os mercados se autorregulavam é tão estúpida quanto o autoritarismo soviético. E ainda não surgiu uma nova, de nenhum dos dois lados. Os problemas estão, relativamente, ficando claros. Há uma crise ecológica muito profunda, mudanças climáticas extremamente importantes. A gente sabe o que fazer para não esquentar mais o planeta. Temos informação, tecnologia, mas não conseguimos tomar decisão nenhuma para valer porque precisamos fazer política. Esse período de interregno, de mudança, de não saber o futuro, gera angústia, mas, por outro lado, é muito interessante, é um momento de ebulição.

MT: Por falar em mudança… É possível mudar com esta estrutura política que nós temos hoje no Brasil?

SB: Este sistema político-eleitoral, esta estrutura republicana morreu. O povo não acredita nela, ela não tem nenhuma legitimidade. Tem que vir outra. E ela virá. É como um corpo que veste uma roupa muito apertada. Incomoda até uma hora em que a roupa explode. O dinheiro é importante em qualquer lugar do mundo. Mas aqui é tudo. Ninguém se elege por suas ideias ou pelo trabalho que realizou. Se elege por dinheiro.  Agora, sobre mudança: o sucesso da Lava-Jato não se dá pela quantidade de corruptos que ela descobre, o sucesso tem que ser medido pela capacidade de interferir no sistema, de provocar alguma reconstrução.

MT: Vamos falar um pouco sobre um tema ainda mais local: a cidade do Rio de Janeiro, que também vive um vazio muito grande, vive um momento de cidade partida, de desencontros …

SB: O maior ativo do Rio de Janeiro é o encontro, como disse Regina Casé. Aqui não tem centro e periferia. Está tudo junto e misturado. Tudo o que damos valor no Rio é encontro: a serra que encontra com o mar, duas baías exuberantes, o sistema lagunar mais lindo do mundo, a maior floresta urbana totalmente dentro do perímetro de uma única cidade, e um litoral oceânico lindo, espetacular. E um nome conhecido por bilhões de pessoas: Copacabana. No Rio de Janeiro você tem isso tudo dentro da cidade de 6 milhões e meio de pessoas e essa natureza enfiada aqui no meio. Esse é o nosso ativo. Isso vale mais do que o Pré-Sal. Mas esse ativo está rendendo pouco pela violência. O medo não é bom para o encontro. O Rio é um exemplo para o mundo: diversidade, mestiçagem, natureza. O Rio expressa os desafios do mundo, mas com violência fica muito difícil. Está ocorrendo uma guerra. Tem uma linda música da Mercedes Sosa e do Leon Gieco que diz “a guerra rouba a pobre inocência das pessoas”. E se a guerra roubar a inocência do povo do Rio, esse ativo acabou. Não tem encontro nenhum mais. Isso tem que passar a ser tratado como problema de saúde pública.

Rio de Janeiro: cartão postal com um ativo incomparável
Rio de Janeiro: cartão postal com um ativo incomparável

MT: O que faltou para o sucesso das UPPs?

SB: As UPPs pareciam um ótimo caminho. Na minha visão, entre outros pontos, o principal erro foi o não empoderamento das populações. Faltou criar conselhos comunitários com mães, igrejas, empreendedores, empresários, … Não eram os comandantes da PM que tinham que decidir sozinhos. Era preciso empoderar as populações, elas mandam. É mais uma questão de política democrática, mas voltamos ao nosso ponto inicial, na república atual, isso interessa a alguém?

MT: É um bom momento para falar de pertencimento, de estarmos todos juntos no mesmo barco.

SB: O pertencimento “ser humano” não é mais um ideal distante, já é a realidade. Mas ainda não construímos o humano consistente com essa realidade. Hoje é tão fácil salvar uma criança aqui na esquina como salvar uma criança no Sudão. Mas isso ainda não é do humano. Nos anos 70, a gente tinha a frase: “pensar global, agir local”. Essa frase continua tão verdadeira e importante quanto era. Só que ela agora exige um complemento: “pensar local, agir global”. Por exemplo, em relação ao aquecimento global. Esta é a história do século XXI: antes do Renascimento, não pensávamos individualmente. Em 2017 só se pensa individualmente. E agora temos que construir um humano com uma consciência maior. A pergunta que se faz é: “eu quero fazer coisas hoje para o planeta amanhã?” É isso que nós vamos descobrir neste século: se nós somos ou não história. Nós, humanos, ficamos muito poderosos antes de amadurecermos. A humanidade não adquiriu maturidade, sabedoria, consciência, para lidar com os poderes que ela tem hoje, coisas que terão impacto daqui a 500 anos, como a emissão de gases de efeito estufa.

MT: Chegamos ao ponto de falar sobre mudanças climáticas. Qual o nosso grande desafio?

SB: Os desafios do século XXI são espantosos. A vida nunca foi melhor do que hoje. Temos que reconhecer isso. Vive-se mais, crianças morrem menos, vive-se com mais bem-estar, há mais controle sobre a vida… Só que os desafios são de natureza diferente, como o desafio de mudanças climáticas, que pode fazer com que a gente perca todos os ganhos contra a pobreza dos últimos anos… A natureza não opera no mesmo tempo que nós. Nós vivemos cerca de 80 anos e estamos aqui há 300.000 anos. Se a gente estragar tudo, tudo que existe hoje não sobreviverá e a ciência nos ensina que em 5 milhões de anos estará tudo aí de novo, mais biodiverso, mais extraordinário. Isso já aconteceu muitas vezes na história. Mas para a vida humana são outros 500…

MT: Você concorda que falta governança global?

SB: O mundo já se tornou uma aldeia global e a única coisa que globalizou, de fato, o processo decisório é o mercado. A realidade é global e governança tem que ser global, não é governo mundial. Não pode ficar só o mercado.

MT: Você vê novas lideranças no Brasil?

SB: Não vejo, mas vão surgir. Onde tem surgido coisas muito interessantes é no pensamento, como o livro do (Yuval Noah) Harari , o “Sapiens”, e coisas interessantes na juventude. Mas a juventude está com um problema. Confúcio tem uma frase muito boa: “o bom caráter decorre do pensamento profundo”. O problema é que o pensamento hoje em dia está muito raso. O Twitter é composto por 3 linhas e o presidente dos EUA se comunica por Twitter. Eu costumo dizer para os meus alunos: “vocês estão vivendo uma tragédia da qual vocês não tem culpa nenhuma, foi a minha geração que deixou para vocês.”

MT: Falta tempo para se aprofundar?

SB: Viver é tempo e na época em que a humanidade é mais produtiva ninguém tem tempo para nada. Cadê o tempo para ler um livro de 300 páginas? Uma das grandes conquistas que a juventude tem que fazer é conquistar esse tempo e usar esse tempo para se aprofundar, colocar bagagem na cabeça.

Sergio Besserman Vianna, no Jardim Botânico do Rio
Sergio Besserman Vianna, no Jardim Botânico do Rio

MT: Quais seriam os pré-requisitos para um bom candidato em 2018?

SB: Condição número 1: que ele tenha consciência de que a nova República morreu. Nós criamos um sistema monstruoso em que os parlamentares têm tudo o que é bônus e não têm ônus nenhum. A constituição do Brasil é totalmente parlamentarista, exceto que o regime é presidencialista. O Brasil não cabe mais nesta roupa, está apertada demais.

MT: E qual tem que ser a grande aposta, a aposta para mudar tudo?

SB: Apostar em educação e conhecimento. Deus é brasileiro e Ele nos deu um atalho: o mundo tem que mudar para uma economia de baixo carbono (termo usado para designar um sistema econômico com baixa emissão de poluentes que provocam o aquecimento global) e o Brasil é o único país do mundo que faz isso a baixo custo (por suas  fontes de energia renováveis) e com isso ganha competitividade frente aos outros. A gente tem tudo o que é preciso. A nossa infraestrutura é ruim e isso é bom! Por que? Já que tem que mudar, por que não mudar já à baixo carbono? E no mundo do baixo carbono nós seremos muito competitivos. Isso se apostarmos firmemente na questão do conhecimento e da educação. No Brasil nós temos um problema grave de não dar valor ao conhecimento. A gente precisa usar as redes, as ferramentas de tecnologia para isso… E conhecimento muda tudo.

MT: Conhecimento e diálogo, certo?

SB: Muita gente acha que diálogo é “dias” + “logos”, que quer dizer, “entre palavras”. Mas “dias”, em grego, também quer dizer aprofundar, escavar. Nós precisamos aprender a dialogar melhor, dialogar de verdade.

MT: Você tem todos os ingredientes para um bom candidato. Você pensa nisso?

SB: Eu faço política desde os 12 anos de idade. E sempre fui muito pressionado para ser candidato, mas nunca topei porque eu fazia política muito melhor sem estar lá. Mas agora, pela primeira vez, existe uma carência tão grande que, se a estrada mostrar que eu posso ajudar de alguma maneira, eu já estou em uma idade em que o sacrifício pode ser feito. Os que não fazem política estarão condenados a ser governados pelos que fazem. Então nós temos que fazer… Isso também já dizia Platão.

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