Terras indígenas: proteger para salvar a Amazônia

Proteger as terras indígenas é ajudar a preservar a Amazônia. Este é o resultado de diversos estudos que vêm sendo feitos sobre mudanças climáticas. De acordo com a ong World Resources Institute, com sede em Washington, somente no Brasil, as terras indígenas têm o potencial de evitar a emissão de quase quarenta milhões de toneladas de CO2 por ano. Para você ter uma ideia do que é isso, seria como tirar das ruas quase sete milhões de carros durante um ano.

Amazônia: a importância das terras indígenas

Segundo estimativas, entre 2000 e 2014,  a taxa de desmatamento das terras indígenas foi de 2%, enquanto nas áreas ao redor, ou seja, áreas não protegidas, a taxa foi de mais de 19%. Outro dado importante: um estudo publicado no jornal americano Proceedings of the National Academy of Sciences destaca que o desmatamento foi reduzido em 75% nas regiões que passaram a ser formalmente controladas por índios no Peru. Isso se explica porque os índios tem uma visão mais sistêmica de interdependência com a natureza. Além disso, quando os índios ganham títulos de terras conseguem reclamar quando suas terras são invadidas e também recebem instruções de agentes especializados sobre boas práticas para a preservação da floresta.

Para falar um pouco mais sobre a importância das terras indígenas no trabalho ligado às mudanças climáticas, entrevistamos a geógrafa peruana Sofia Vargas Romero, de 28 anos, uma jovem líder que já trabalha há 7 anos com temas ligados à preservação do meio ambiente. Durante 5 anos, Sofia trabalhou para a The Nature Conservancy, uma das maiores ONGS ligadas à preservação da água no mundo, e agora trabalha de forma independente como consultora para o fortalecimento de políticas ambientais.

Sofia Vargas Romero fala sobre a importância das terras indígenas foto: Biennial of the Americas
Sofia Vargas Romero foto: Biennial of the Americas

Muda Tudo: Sofia, como é o trabalho desenvolvido nos territórios indígenas peruanos?

Sofia Vargas: Quando estava na TNC, um dos principais projetos foi criar e implementar um sistema de retribuição por serviços ecossistêmicos, no qual se reconhecia o valor do trabalho de preservação realizado nas comunidades indígenas da bacia do rio Cumbaza.  Por meio de um trabalho de sensibilização, capacitação e diálogo, foram estabelecidos acordos pelos quais os agricultores se comprometiam a retribuir economicamente o trabalho das comunidades indígenas. Também apoiamos um projeto para melhorar a qualidade da produção de cacau, melhorando a qualidade de vida das comunidades e constribuindo com a redução do desmatamento, uma vez que as famílias se comprometiam a não expandir a fronteira agrícola.  O projeto aumentou em cinco vezes a produção das famílias, que acabaram investindo de novo em suas próprias terras.

MT:  Como são os mecanismos de compensação?

SV: A compensação ambiental é parte da política do Ministério do Meio Ambiente peruano, a qual apoiei como especialista da TNC. Essa política se aplica a impactos residuais, sempre e quando não se podem adotar medidas de prevenção, correção, mitigação e recuperação.

MT: Qual o maior obstáculo para realizar o seu trabalho?

SV: Um dos principais problemas é a falta de vontade política para a preservação do meio ambiente. De maneira equivocada, as pessoas acreditam que preservação se contrapõe ao desenvolvimento econômico. Fora isso, existe a falta de planejamento e de coordenação entre os setores, não existe uma visão coerente de desenvolvimento no Peru, o que resulta, por exemplo, em projetos de construção de estradas sobre áreas protegidas e territórios indígenas.

MT: Vamos falar um pouco sobre os desafios que a Amazônia peruana enfrenta.

SV: A Amazônia peruana enfrenta muitos problemas, como o desmatamento, que se deve principalmente a expansão da fronteira agrícola. Fora isso, existe o problema da mineração ilegal, uma das principais causas do desmatamento e que também traz graves problemas sociais, como exploração sexual e infantil. Outro grande problema é a contaminação dos rios por causa do constante derramamento de petróleo, o que afeta a saúde de diversas comunidades indígenas. E para terminar, os mega projetos de rodovias, hidroelétricas, linhas de transmissão e a hidrovia amazônica que se não tiverem uma boa gestão podem gerar impactos irreversíveis à biodiversidade.

Floresta Amazônica, a importância das terras indígenas

MT: O que você acha que os governos devem fazer mais pela preservação da Amazônia?

SV: Segundo vários estudos, as áreas protegidas e as comunidades indígenas são importantes barreiras para o desmatamento. Por isso, proteger as terras indígenas deveria ser uma das principais estratégias para por um freio a esse problema. Além disso, áreas naturais protegidas, áreas de conservação privadas, áreas de conservação regional, concessões de ecoturismo também provaram ser mecanismos eficientes para proteger a biodiversidade. E finalmente, seria importante dar maior impulso aos mecanismos de incentivos econômicos de preservação das florestas.

MT: Como podemos envolver a sociedade na luta pela preservação da Amazônia?

SV: É muito importante que a sociedade conheça a importância da Amazônia e reconheça tudo o que ela pode nos oferecer. Somente com cidadãos mais informados e sensibilizados vamos conseguir maior participação de cada um de nós nesse processo.

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