Omunga: educação para todos

O Instituto Omunga, que trabalha para educar crianças em áreas de extrema vulnerabilidade social, como o sertão do Piauí, África (e em breve Amazônia), se prepara para lançar uma nova alternativa para financiar suas ações do bem.

Roberto Pascoal, criador do Instituto Omunga, está prestes a lançar um clube de assinaturas, reinventando a maneira de relacionamento entre a instituição e o doador. Já está tudo pronto para o site entrar no ar. Com a ajuda pro bono de uma agência de comunicação e de uma produtora de Joinville, onde mora, somada a uma agência de comunicação de Jaraguá do Sul, Pascoal conseguiu redesenhar o modelo tradicional de doação e criou um esquema para garantir a recorrência financeira, permitindo ainda que os assinantes estejam mais próximos das causas com que colaboram, por meio da experiência social.

Roberto Pascoal: Em um determinado mês o assinante vai receber em troca de sua doação recorrente o Omunga box, uma caixa com itens exclusivos, que pode ser artesanato de regiões beneficiadas, uma caneca, um moleskine. No outro, vai receber o Omunga Play, um conteúdo online sobre o nosso projeto com minidocumentários e entrevistas exclusiva. Vamos ter também um sorteio, no qual o vencedor vai ser convidado para ir ao sertão ver nosso projeto de perto e isso vai virar documentário.

Roberto Pascoal, fundador do Instituto Omunga Foto: Flickr
Roberto Pascoal, fundador do Instituto Omunga Foto: Flickr

Nós conversamos com Roberto Pascoal na sede do Civi-co, em São Paulo. O empreendedor social, que faz parte da incubadora de negócios Cause, em Joinville, fundou a Omunga em 2013. Para financiar o projeto, começou a vender camisetas online, por meio da Omuga Grife Social.

“Omunga”, no dialeto angolano Umbundo, significa união/unidade/conjunto. Em 5 anos, ele vendeu cerca de 7.000 camisetas, em parceria com organizações privadas e sociais,  e conseguiu viabilizar a construção de 3 bibliotecas: uma em Betânia do Piauí, outra em Curral Novo, também no Piauí, e a terceira em Angola. No ano passado, ele decidiu mudar o modelo de financiamento e criar o clube de assinaturas.

Muda Tudo: Pascoal, como começou o seu negócio social?

Roberto Pascoal: A minha história com o empreendedorismo social começou há bastante tempo, muito pela educação dada pela minha família, de sempre olhar para o próximo, sempre sentir a dor dos outros. Eu trabalhei durante 10 anos na área da comunicação, mas tinha um bichinho dentro de mim que me fazia ir a orfanatos, presídios, cozinhar para moradores de rua … Um dia eu decidi ir para a África, pois eu sempre fui chamado para o social e tenho uma enorme curiosidade pelo extremo.

Pascoal conta que foi para Angola para ficar três meses e acabou ficando 4 anos, acolhido pela Ordem dos Frades Menores, pela missão católica, trabalhando como voluntário.

Foto: Flickr Omunga
Foto: Flickr Omunga

Roberto Pascoal: Depois de 4 anos ficou muito claro que eu queria trabalhar com a extrema vulnerabilidade, antes chamava isso de extrema pobreza, mas não acho uma palavra boa. Aí eu fui afunilando o que eu queria, e decidi começar pelo Brasil.  Separei as cidades mais vulneráveis do país. Betânia do Piauí e Curral Novo fazem parte de uma lista de cidades com indicadores sociais extremamente baixos.

(O índice de vulnerabilidade social é composto por uma média de 16 indicadores, que incluem categorias como infraestrutura urbana, capital humano, renda e trabalho.)

Foto: Flickr Omunga

 

“Quando eu cheguei a Betania do Piauí, eu fui a uma região muito carente, chamada Serrinha, onde não tinha nem energia eletrica na época. Eu cheguei a uma escola e perguntei ao professor: O que vocês querem? E ele me respondeu: Livros. A gente não quer comida, brinquedo, dinheiro, celular, nada. Só livros para dar aula melhor.”

Muda Tudo: E como você conseguiu levar os livros para lá?

Roberto Pascoal: Eu falei com o prefeito: se você construir quatro paredes eu garanto livros, os móveis e os computadores. Ele começou a construção e eu comecei a vender camisetas, no começo como sacoleiro, em Joinville. Comecei a vender rifas, coletar livros infantis e infando-juvenis, gibis e outros materiais pedagógicos.

Foto: Flickr Omunga
Camisetas da Grife Social Foto: Flickr Omunga

Muda Tudo: E da primeira para a segunda biblioteca?

Roberto Pascoal: Depois que a gente construiu a primeira biblioteca, a cidade vizinha disse: “a gente também quer”. E eu respondi: “Então dá um jeito de construir as paredes que eu monto.” Aí no dia da inauguração eu pensei: se eu deixar essa biblioteca, o que vai ser disso daqui a um ano? E aí eu vi que o negócio estava na formação de professores e comecei a conseguir voluntários para trabalhar.

Foto: Flickr Omunga
Foto: Flickr Omunga

Muda Tudo: E quem são esses formadores?

Roberto Pascoal: Temos uma equipe de 3 pessoas que atuam exclusivamente para a Omunga: eu (no comando), um design e uma assistente administrativa . Fora isso temos em torno de 10 voluntários altamente qualificados, com mestrado, doutorado, … e conforme as características de cada região a gente monta um plano pedagógico e seleciona novos voluntários. A gente vai de 3 a 4 vezes por ano em cada lugar, para garantir uma formação contínua.

Muda Tudo: E como vai indo o projeto?

Roberto Pascoal: No começo eu perguntava para as crianças: o que vocês querem ser quando crescerem? E eles diziam: professor, zelador e “lavra”. Ser professor para elas era a mesma coisa que dizer eu quero ser presidente do Google. Até que há algumas semanas eu perguntei para uma menina o que ela queria ser e ela me disse: advogada. Isso em um lugar onde não existe nem energia elétrica. Ela me disse que queria ser advogada porque a professora explicou que advogados cuidam e protegem as pessoas.

Foto: Flickr Omunga
Roberto Pascoal e professores Foto: Flickr Omunga

Muda Tudo: Você disse que não tinha nem luz nessa povoado?

Roberto Pascoal: Quando a gente estava construindo a biblioteca em Baixio dos Belos, em Curral Novo, eles estavam construindo cisternas. A gente chegou praticamente junto com a água. Naquela ocasião, em 203/2014, as crianças não sabiam o que era uma pedra de gelo, porque não tinha água nem energia. As pessoas enterravam os alimentos para manter a temperatura. E em Serrinha, onde a maior parte das casas era de pau a pique, as crianças eram enterradas durante a noite para ficarem protegidas do vento e do frio…

Muda Tudo: De fato, uma extrema vulnerabilidade social que muita gente nem acredita que ainda exista no Brasil.

Roberto Pascoal: Existem 803 cidades em regime de extrema vulnerabilidade social no Brasil, com 5 milhões de crianças. Nós acreditamos que essas crianças têm o mesmo direito das crianças que estão estudando na melhor escola de São Paulo. Na minha cidade, Joinville, e em São Paulo, a possibidade das causas sociais serem assistidas são infinitamente maior do que nessas cidades onde atuamos.

Muda Tudo: Quantas crianças vocês ajudam?

Roberto Pascoal: No sertão e na África (duas cidades no sertão do Piauí e em Luanda, capital de Angola) a gente beneficia 4.500 crianças e cerca de 350 professores. Agora vamos começar também a trabalhar na Amazônia, ajudando 2.000 crianças.

Muda Tudo: Como você compara a vulnerabilidade social na África e no Piauí?

Roberto Pascoal: São muito parecidas no que diz respeito ao acesso à informação e à formação de professores. Educação não é prioridade.

Foto: Flickr Omunga
Foto: Flickr Omunga

 

Muda Tudo: Qual a grande dificuldade de conseguir engajar a sociedade civil na sua luta?

Roberto Pascoal: Eu tenho que convencer as pessoas a ajudar crianças invisíveis. É muito fácil eu te chamar para ir no orfanato que fica a cinco quilômetros daqui e te comover. Então eu tento me colocar como uma ponte, para que as pessoas consigam ajudar quem está aqui, mas considerar essas outras crianças de longe também.

Muda Tudo: E essa ponte está funcionando? Está aumentando o engajamento?

Roberto Pascoal: Está sim. É um trabalho árduo, mas eu sinto que as pessoas querem ajudar, fazer parte de uma causa.

Foto: Flickr Omunga
Foto: Flickr Omunga

Muda Tudo: O que impede as pessoas de participarem mais?

Roberto Pascoal: Sinto que as pessoas desejam fazer parte de uma causa e que o espírito colaborativo é cada vez mais forte. Também percebo a busca por propósitos e ressignificação da vida e, nesse contexto, colocar-se à disposição do bem comum se torna cada vez mais relevante. No entanto, as pessoas, por vezes, são inseguras e precisam estabelecer um vínculo sólido de confiança. Procuramos estabelecer esse vínculo com ações concretas, com continuidade, transparência e o nosso verdadeiro objetivo de construir um mundo melhor por meio da educação.

Muda Tudo: Você acha que o poder público poderia fazer mais?

Roberto Pascoal: O poder público poderia colocar a educação como prioridade.

Muda Tudo: A maior dificuldade do seu trabalho é essa trava de conseguir um canal com as autoridades?

Roberto Pascoal: Depois da captação de recursos sim.

Muda Tudo: Eu imagino que você tenha uma série de casos super emocionantes para contar …

Roberto Pascoal: Muitos. Quando nós inauguramos a segunda biblioteca, em Baixio dos Belos, o pai de um menino me disse: “o meu filho, com cinco anos, está tendo acesso a uma quantidade de livros tão absurda que eu nunca imaginei. A partir de hoje eu acredito que o meu filho vai ter um futuro, que ele não vai ter uma vida tão miserável como a que eu tive, porque através dos livros que vocês trouxeram ele vai conseguir conhecer o mundo. Eu sei que lá fora é diferente e o meu filho vai poder escolher o tipo de vida que ele quer ter.” Esse momento me fez pensar muito na formação de professores. Eu pensei: a gente não pode sair daqui.

Foto: Flickr Omunga
Foto: Flickr Omunga

Muda Tudo: E não estamos falando somente de livros, mas de internet, certo?

Roberto Pascoal:  Muitas crianças nunca tinham visto um computador e agora, seis meses depois, eles abrem a internet e falam comigo. (A Omunga já doou mais de 15.000 livros e 15 computadores)

Muda Tudo: Pascoal, vamos terminar com a nossa clássica pergunta: para você, o que muda tudo?

Roberto Pascoal: Eu acredito que as pessoas mudam tudo. Eu acredito muito nas pessoas, eu sou muito otimista. O Dr. João Marcos Buck, juiz de Joinville, tem uma frase da qual eu gosto muito. Ele diz que o ser humano jamais vai ser uma ameça, sempre vai ser uma promessa. Se eu, com toda a minha humildade, estou conseguindo engajar as pesssoas para conseguir levar a educação aos lugares mais pobres do Brasil, … Se cada pessoa utilizar o seu potencial máximo para algum tipo de causa, ou para ser honesto somente, está resolvido. A África, o sertão, a Amazônia são a minha causa. Mas a sua causa pode ser o seu filho, a sua casa, seu bairro, a sua empresa. Causas não faltam!

O que muda tudo são as pessoas. Eu não acredito nos grandes homens. Eu acredito nas pequenas microrrevoluções que, somadas, se tornam grandes revoluções.

Enquanto o Clube de assinaturas não entra no ar, você pode ajudar a Omunga comprando uma camiseta pelo site deles: “compre uma camiseta e mude uma história” http://www.omunga.com

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