Música que muda tudo

“Transformar o luto em luta”. Tanta gente tem repetido esse mantra diante da escalada de violência no Rio de Janeiro (e em tantas outras partes do Brasil) que decidimos criar uma série de entrevistas com personagens que tiveram força para transformar tragédias pessoais em exemplos de vida para cada um de nós.

São histórias inspiradoras, de pessoas extraordinárias, como o regente Carlos Eduardo Prazeres, fundador da Orquestra Maré do Amanhã, um projeto que já levou o ensino da música erudita a milhares de crianças que vivem nas 16 comunidades que formam o Complexo da Maré, uma das regiões mais atingidas pela violência no Rio.

O maestro Carlos Eduardo Prazeres Foto: Facebook
O maestro Carlos Eduardo Prazeres. Foto: Facebook

Em 1999, o pai de Carlos Eduardo, Armando Prazeres, fundador da orquestra sinfônica da Petrobrás, foi assassinado durante um sequestro em Laranjeiras, zona sul do Rio. De acordo com as investigações, o criminoso morava na Maré. Daí a escolha de onde criar o projeto.

Carlos Eduardo sonha agora em conseguir levar a orquestra para uma turnê mais do que especial em Portugal, uma turnê para homenagear o pai, português radicado no Brasil.

Carlos Eduardo: Meu sonho é tocar em Arouca, Portugal, em 14 de janeiro de 2019, dia em que lembramos o 20° aniversário do assassinato do meu pai, Armando Prazeres, que nasceu em Arouca. Pretendemos tocar em Lisboa, Fátima, Arouca, Porto e Viana do Castelo.

Conversamos com Carlos Eduardo sobre sonhos e realizações, problemas e soluções, violência … e paz. Nossa entrevista aconteceu pouco depois do lançamento do documentário sobre a Orquestra, “Contramaré”, produzido pelo repórter fotográfico do jornal O Globo, Daniel Marenco.

 

Muda Tudo: Carlos Eduardo, houve uma escalada de violência importante no Rio nos últimos meses. Isso está impactando as atividades da Orquestra Maré do Amanhã?

Carlos Eduardo Prazeres: Sem dúvida, este ano tivemos um início atípico. Se antes tínhamos 4 de cada dez aulas canceladas pela violência, nos primeiros meses ficamos quase em 50%.

MT: Explica para a gente como funciona exatamente o projeto. 

CEP: O projeto está inserido nas escolas e, hoje, musicaliza 3.500 crianças nas 16 comunidades do Complexo da Maré. Não há uma única criança matriculada em um espaço de desenvolvimento infantil e creche, com 4 e 5 anos, que não esteja sendo submetida ao poder miraculoso da música. Até este ponto as aulas são duas vezes por semana, com duração de 60 minutos, e as crianças são observadas pelos monitores e professores para descobrirmos os talentos escondidos ali. Uma vez identificados, essas crianças são convidadas, a partir de um acordo com a Secretaria Municipal de Educação, a mudarem para uma das duas escolas primárias onde temos hoje núcleos de orquestras mirins. Nesses núcleos as crianças passam a ter aulas de instrumento, leitura musical…  As demais continuam sendo alfabetizadas musicalmente, a fim de que não percamos ninguém por estar atravessando um momento ruim. Aconteceu com um de nossos alunos que, no ano da avaliação, demonstrou um péssimo rendimento. Foi separado dos demais e, lá na frente, nossos psicólogos identificaram o problema: o pai surrava a mãe e ele estava em depressão. Acertamos uma terapia intensiva com ele e hoje ele faz parte da orquestra principal e é professor dos pequeninos. Ao completarem 16 anos, uma idade em que os meninos precisam ajudar em casa, eles começam a receber uma bolsa de um salário mínimo, aulas particulares de seus instrumentos, cursos de produção cultural, aulas de empreendedorismo voltadas à música, etc.

Alunos do projeto Maré do Amanhã
Foto: Facebook Maré do Amanhã

MT: Quem banca isso tudo? A sociedade civil ajuda? Eu vi que já foram realizadas campanhas de crowdfunding na internet, por exemplo.

Carlos Eduardo: Quem banca mesmo é a iniciativa privada, com o uso das leis de incentivo. Fizemos uma campanha para viagem dos meninos à Venezuela, em 2015, mas não arrecadamos o suficiente. Um mecenas acabou bancando toda a viagem.

Muda Tudo: Como a sociedade civil poderia ajudar mais? Vemos que a consciência da importância de ajudar programas como o seu está cada vez maior, mas será que isso é refletido em ajuda de fato?

Carlos Eduardo: Está começando timidamente. Pela primeira vez este ano tivemos cerca de 200,00 reais (!) doados para a Lei Rouanet por pessoas físicas. O Brasil precisaria intensificar uma campanha para que as pessoas destinassem seu imposto de renda para projetos sociais. Todos reclamam que o dinheiro que pagam de imposto não retorna para a sociedade. Esta é uma chance de ouro de fazer com que retorne. Estudos mostram que a renúncia de IR de pessoa física pode atingir 9 bilhões/ano! Imagina o que poderíamos fazer com essa verba! Por exemplo, as grandes empresas poderiam incentivar seus funcionários e treinar os departamentos pessoais para fazerem esse processo burocrático, que é o que eu acho que afasta as pessoas.

Muda Tudo: E o poder público? O que você acha que o governo poderia fazer e não está fazendo?

Carlos Eduardo: Acho que os governos poderiam fomentar mais as leis de incentivo. A economia criativa movimenta muito dinheiro ao longo do ano e pode ter impactos fantásticos na economia de cidades, estados e Governo Federal. Poderiam, por exemplo, fazer campanhas para doação do IR por pessoas físicas e desburocratizar o processo para não assustar os possíveis doadores.


Muda Tudo:  Quantas crianças vocês já impactaram até agora?

Carlos Eduardo: Já passaram por nossas mãos cerca de 5 mil crianças e adolescentes. Hoje estamos trabalhando com 3.500 crianças e pretendemos chegar a 5 mil novamente no final do ano.

alunos do projeto Maré do Amanhã (música que muda tudo)
Foto: Facebook

Muda Tudo: Como você vê o projeto em cinco anos?

Carlos Eduardo: Em cinco anos não digo, mas em médio prazo, cerca de 8 anos, o trabalho com essas crianças fará diferença na vida da Maré.


Muda Tudo: Dá um exemplo de uma criança que se transformou com o projeto, que mudou totalmente de vida.

Carlos Eduardo: Muitos tiveram suas vidas transformadas pelo projeto, mas sempre uso o exemplo de um de nossos flautistas, que vivia envolvido em brigas e conflitos. Ele tinha tudo para fazer “carreira” no tráfico. Só que a música o transformou. Hoje ele é um gentleman, ajuda todo mundo e se tornou professor multiplicador do projeto.


Muda Tudo: Quais as maiores dificuldades do seu trabalho?

Carlos Eduardo: Ainda é a violência, a vida que eles vivem não é digna. Troca-se mais tiros na Maré do que na Síria, isso é inaceitável. E todos estão vulneráveis. Ano passado perdemos uma de nossas alunas, alvejada enquanto brincava no terraço de casa. Outro fator é o financeiro. Desejamos criar uma orquestra jovem, completa, mas ainda não atingimos a verba necessária.


Muda Tudo: Qual a maior recompensa do seu trabalho?

Carlos Eduardo: Ver o sorriso no rosto de cada um deles, ver a animação e a realização em cada conquista. E, graças a Deus, têm sido muitas: desde a visita ao Vaticano, a convite do Papa Francisco, até o Reveillon em Copacabana com a cantora Anitta.

Papa Francisco e Carlos Eduardo Prazeres (música)
foto: Facebook

meninos da Maré do Amanhã no show da Anitta: música que muda tudo
foto: Facebook

Muda Tudo: Como você conseguiu transformar um sentimento que podia ser o de vingança em algo tão positivo?

Carlos Eduardo: Sabe que não sei o que aconteceu. Foi uma transformação gradual, lenta, teve muito a participação da força que vem do Alto, disso tenho certeza.

Muda Tudo: Um sonho é a turnê em Portugal, e uma meta?

Carlos Eduardo: Conseguir criar a Sinfônica Jovem Maré do Amanhã e começar, efetivamente, a profissionalização deles, uma vez que não existem mais orquestras jovens no Rio de Janeiro.


Muda Tudo: Do que o Rio precisa?

Carlos Eduardo: O Rio e o Brasil precisam de investimento em educação e cultura. Como dizia Darcy Ribeiro nos anos 80: “invistam em educação hoje e não precisarão investir em segurança e presídio amanhã”. Como não investiram, hoje precisamos de intervenções na área de segurança.


Muda Tudo: E para terminar o nosso papo maravilhoso, para você, o que muda tudo?

Carlos Eduardo: A educação. A educação que liberta, faz pensar, que permite escolher baseado em seu futuro e nas consequências de sua escolha.

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