Ventos de cidadania: vinte anos de Projeto Grael

“O pessimista reclama do vento, o otimista espera ele mudar e o realista ajusta as velas.”

A frase é de Lars Grael, iatista brasileiro que dispensa apresentações, mas sobre quem fazemos questão de falar bastante…

Integrante de uma tradicional família do iatismo brasileiro (que inclui o irmão Torben Grael), Lars participou de 4 Olimpíadas, levando 2 medalhas de bronze. Foi campeão brasileiro 10 vezes, campeão sul-americano 5 vezes e 1 vez campeão mundial (em 2015). Em 1998, em Vitória, Lars foi atropelado por uma lancha, que invadiu a área de uma regata, e teve a perna direita amputada. Afastado do mar, ele entrou para a política, dedicado a continuar sua missão de incentivar o esporte. Esteve à frente da Secretaria Nacional de Esportes durante o governo Fernando Henrique Cardoso e exerceu o cargo de Secretário Estadual da Juventude, Esporte e Lazer no governo de Geraldo Alckmin, em São Paulo. Mas a paixão pelo mar falou mais alto do que as dificuldades físicas e Lars voltou a velejar na classe Star. Deu show: virou um expoente mais uma vez, levando o título mundial. Foi depois do acidente, em 1998, que Lars fundou junto ao irmão Torben o Instituto Rumo Náutico/Projeto Grael, uma revolucionária escola pública de vela, em Niterói, Rio de Janeiro. O  esporte que, até então, era visto como “de elite” passava a ser ensinado a jovens alunos da rede pública. 20 anos depois, o projeto vai de vento em popa e merece muito mais do que nosso parabéns. Merece nossa participação.

Lars Grael em barco a vela, com bandeira do Brasil
Lars Grael foto: Facebook

Tivemos o prazer de entrevistar Lars Grael, para falar sobre consciência social e ambiental, cidadania, espírito de equipe e muito mais. Começamos a conversar sobre a situação no Rio de Janeiro, que precisa tanto de um exemplo de superação como a do iatista.

MUDA TUDO: O Rio de Janeiro está vivendo um momento de pessimismo, falta de perspectivas diante de tantos problemas que estamos enfrentando. Lembramos da sua frase (citada no começo do texto) e começamos nosso bate-papo te perguntando: Lars, o que está faltando para que as pessoas ajustem as velas da nossa cidade?

LARS GRAEL: Eu acho que começa com cidadania. O Rio de Janeiro passou por um processo de esvaziamento e perda de relevância nacional na questão geopolítica e econômica do país desde quando perdeu o status de capital federal. E, depois, por um processo político e administrativo. Nós temos como regra simples: cada cidadão lamenta o destino e critica a má qualidade dos políticos sem considerar que eles foram escolhidos por nós mesmos. Mas muitas vezes a classe política é o reflexo da sociedade. Eu acho que o Rio se tornou uma caricatura da falência da nação brasileira e não há como a gente ficar permanentemente reclamando do destino sem nós sermos os protagonistas desse destino. O cidadão fluminense, para falarmos no sentido amplo do estado, tem que passar por uma mudança muito grande. A começar pela qualidade do voto. Precisamos eleger representantes que nós julgamos ser eticamente capazes de representar a nossa sociedade e não se servirem da sociedade. Todos nós temos uma responsabilidade muito grande quando decidimos quem serão nossos representantes.

MT: Você disse que começa por aí. E o que mais?

LG: A gente tem como regra criticar o político que comete um deslize ético, que participa de um esquema de corrupção. Mas este mesmo cara que critica isso avança o sinal fechado, ultrapassa pelo acostamento e por aí vai. Ele não dá o exemplo. Então eu acho tem que haver uma mudança comportamental da sociedade. Já que os políticos não são capazes de fazer esta transformação, que ela venha da sociedade. E para isso precisa existir uma nova consciência do papel de cada um de nós para tentar construir um Rio de Janeiro melhor.

Barcos a vela no por do sol da Baía da Guanabara
Foto: Facebook do Projeto Grael

MT: Você tenta fazer isso com o Projeto Grael, em Jurujuba, Niterói. Dar exemplo, criar novas consciências … Como o poder público e a sociedade civil podem fazer parte ajudar nesse trabalho?

LG: Eu acho que cada um tem que dar a sua dose de contribuição. Nós damos a nossa. Começamos o Projeto Grael com a Prefeitura de Niterói, em 1998. Depois nos tornamos uma ONG independente e depois uma organização social, que é o Instituto Rumo Náutico. Agora em 2018 nós celebraremos 20 anos. 20 anos em que aprendemos com erros e acertos a forma de sermos sustentáveis. Pelo projeto já passaram cerca de 14.000 jovens. Isso é, ao mesmo tempo, um sentimento de dever cumprido e uma responsabilidade enorme de, a cada ano, mantermos o projeto, melhorando a qualidade e de fazermos a captação de recursos, que são cada vez mais escassos, num mercado onde o patrocínio está muito restringido. Nem todo mundo precisa ter uma ONG, mas precisaria encontrar uma forma de contribuir. Precisamos passar a pensar um pouco mais nos outros. Talvez seja por aí o início desta virada.

Alunos do projeto Gael olham para barco a vela
foto: Facebook do Projeto Grael

MT: O grande desafio hoje do projeto é captação?

LG: Sim, porque as leis de incentivo dependem de percentuais de arrecadação, no nosso caso de imposto de renda. A maior parte do recurso captado por nós é recurso incentivado e a menor parte de recurso doado, o chamado recurso a fundo perdido. Com a crise econômica do país, as empresas estão faturando menos e pagam menos impostos. Então o que elas têm a doar, em termos de incentivos fiscais, é menor. Com isso, os projetos mais robustos ainda conseguem apoio, mas os menores não. Então você tem que estar sempre tentando comunicar o seu projeto para ter credibilidade. No nosso caso temos uma série de premiações, entre elas o reconhecimento do Criança Esperança, que nos ajudou muito a captar recursos.

MT: E como é a contribuição de pessoas físicas?

LG: Os recursos vêm basicamente de empresas. Mas a Lei de Incentivo ao Esporte (Lei 11.438/06) estabelece benefícios fiscais também para pessoas físicas que estimulem o desenvolvimento do esporte por meio de patrocínio e doação. Permite a dedução de ate 6% do imposto de renda devido pela pessoa física. Muitas pessoas não contribuíam por desconhecimento disso. Mas, com o passar do tempo, estamos vendo que aumentaram as doações de pessoas físicas, que hoje já representam uma fração relevante da nossa captação de recursos.

meninos em cima de barcos a vela no Projeto Gael
Alunos do Projeto Gael foto: Facebook do projeto

MT: Além das aulas de vela, quais são as outras atividades do projeto?

LG: Nos primeiros anos o projeto nada mais era do que uma escolinha de vela com objetivo de formar velejadores, que chegariam às competições. Mas a gente mudou. Passou a ser uma escola de cidadania. A probabilidade de criar campeões de vela é muito pequena, em relação ao potencial de criar cidadãos, trabalhadores. A perspectiva era muito maior de formar jovens profissionais para o mercado náutico, que é um mercado carente de mão-de-obra capacitada. Então nós avançamos muito na parte de ensino técnico profissionalizante, oferecendo a esses jovens aulas de elétrica de embarcação, carpintaria e marcenaria naval, reparos em fibra de vidro, reparos de velas e confecção de capas e toldos, manutenção de motores, preparação de marinheiros de convés, …  Esses jovens saem do projeto com a chancela de terem passado pelas nossas oficinas e acabam tendo uma grande aceitação no mercado dos clubes, da frota pesqueira, dos estaleiros, das marinas. Nós temos alunos que hoje são comandantes da barca de Niterói, oficiais da Marinha e por aí vai. Isso é motivo de orgulho.

MT: Muito orgulho. E em relação a reinserção de jovens na sociedade?

LG: Nós temos um acordo de cooperação com o juizado tanto de menores quanto de apenados, que prestam serviço para a comunidade e nunca tivemos problemas com eles. Para eles é uma perspectiva profissional e eles sabem ver isso como uma oportunidade.

Duas meninas em convés de barco a vela
Meninas consertam barco no Projeto Gael. Foto: Facebook

MT: Como você vê o projeto daqui a 10 anos?

LG: Nós temos hoje o objetivo de criar o que chamamos de Rede Náutica Educativa, que tem como pilar o uso de esportes náuticos como ferramenta de inclusão social para estudantes da rede pública de ensino. O Projeto Gael foi o primeiro, mas não é o único. Na minha passagem pelo governo, tanto federal, quanto de SP, realizamos projetos como o Navegar e o Navega São Paulo, com núcleos de vela, remo e canoagem, que ainda funcionam parcialmente. E muitas outras iniciativas foram aparecendo. Nós hoje mantemos contato com várias ONGs em atividade no Brasil. Nosso objetivo é criar a Rede Náutica Educativa, mantendo a independência de cada núcleo, mas onde, com a troca de experiências e a capacitação desses profissionais, a gente possa ampliar este trabalho.

MUDA TUDO: Você falou em política. Política faz parte de seus planos?

LARS GRAEL: Não. Eu não tenho nenhuma ambição político partidária eleitoral.

MT: Agora vamos falar de acessibilidade. Quase 20 anos depois do seu acidente, você acha que a acessibilidade no Brasil melhorou?

LG: Melhorou. Nós temos, por exemplo, o estatuto da pessoa com deficiência, que é provavelmente um dos códigos mais avançados no mundo no que diz respeito ao direito das pessoas com deficiência. Mas é um país que faculta o cumprimento ou não das leis. As leis existem e são muito boas. Garantem cotas para que pessoas com deficiência tenham acesso ao ensino superior, ao mercado de trabalho … Mas entre a lei existir e o cumprimento delas há um abismo muito grande.

MT: E acessibilidade em termos físicos, arquitetônicos?

LG: Igual. Os próprios logradouros públicos não cumprem as leis. O próprio prédio do Ministério do Trabalho não tem acessibilidade. Essa é uma questão que precisa de conscientização e os governos deveriam dar exemplo, garantindo acessibilidade em toda repartição pública. Hoje não é aceitável que um cadeirante vá votar na sua zona eleitoral e encontre uma escada, uma barreira arquitetônica. Tem que ter essa conscientização de que a acessibilidade precisa ser algo universal. Houve avanço, mas ainda há muito para avançar.

Cadeirante em rua de paralelepípedo
Foto: Pixabay, internet

MT: E Lars, para terminar, nossa pergunta clássica: Para você, o que muda tudo?

LG: Eu acho que é o cidadão viver consciente, não apenas da sua própria vida, da sua segurança, saúde e bem-estar, mas que zele pelo próximo, por fazer a diferença para o outro. Se todos nós tivéssemos a consciência de ajudar o próximo, o nosso conceito de cidadão seria outro. O individualismo que hoje norteia o brasileiro– até como senso de autoproteção – prejudica. Nós temos que ter uma consciência maior do coletivo, da família, do bairro, da cidade e da nação. Eu acho que cada um tem que dar a sua dose de contribuição.

COMO COLABORAR COM O PROJETO GRAEL

Existem diversas formas de você colaborar: como voluntário, doador de recursos, comprando produtos … Se você tem interesse em ajudar, acesse a página e veja como você pode ajudar a formar campeões no mar … e na sociedade!

http://www.projetograel.org.br

Lars Grael em barco durante regata
Lars Grael durante regata foto: Facebook

 

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