Castração: solução para reduzir a quantidade de cães nas ruas

O Brasil enfrenta um grave problema: a enorme quantidade de animais nas ruas. Segundo estimativas da Organização Mundial de Saúde, existem hoje 30 milhões de animais abandonados no país, sendo 10 milhões de gatos e 20 milhões de cães.

São animais que vagam pelas ruas com fome, sede e muitas vezes doentes, provocando um problema de saúde pública, pois podem transmitir, por meio da mordida, doenças como raiva, que não tem cura.

A carioca Marcia Coelho Netto resgatou uma cadela que estava no cio e estava sendo atacada por cerca de 20 machos em Petrópolis, região serrana do Rio de Janeiro. Ela chegou a um posto de gasolina quando o lavador de carros Flávio pediu ajuda para separar os cães. Com o apoio de outros frentistas do posto, eles conseguiram separar a matilha e Marcia tomou a iniciativa de levar a cadela para um veterinário. O animal foi higienizado, examinado e castrado, evitando que a cena cruel se repetisse.

a veterinária Cintia e assistente na clínica Amigo Bicho
A veterinária Cintia e assistente na clínica Amigo Bicho, em Petrópolis

 

“Eu já tinha resgatado alguns animais atropelados, doentes… mas essa foi a primeira vez que me deparei com uma cena assim. A cadela poderia ter morrido com tantos cães grandes em cima dela. Com a ajuda do pessoal do posto de gasolina, conseguimos afastar os machos, coloquei ela dentro do meu carro e corri para a veterinária”.

Marcia conta que no início a sensação foi de desespero, mas que depois toda tremedeira valeu a pena.

“Eu não sabia se ela era brava, se poderia me morder no meio do caminho. Depois do banho, ela deitou a cabeça no meu colo e começou a lamber a minha mão, como se estivesse me agradecendo. Foi uma emoção.”

 

Marcia é voluntária da entidade filantrópica Dog’s Heaven, fundada pelo arquiteto paulista Guilherme Agnew, que hoje cuida de aproximadamente 230 cachorros abandonados. Guilherme adotou o primeiro cachorro em Petrópolis, em 2004. De lá pra cá, chegou a ter 45 animais na própria casa… Aí, não teve mais jeito. Alugou um terreno e construiu um abrigo. Desde 2012, o Dog’s Heaven existe como entidade filantrópica, dando abrigo a animais que lá são tratados e vermifugados, e as fêmeas castradas.

Marcia Coelho Netto em uma das feiras de adoção realizadas pela Dog's Heaven, em Petrópolis
Marcia Coelho Netto em uma das feiras de adoção realizadas pela Dog’s Heaven, em Petrópolis

Guilherme gasta em média 20.000 reais por mês, incluindo os cerca de R$ 150,00 que paga por cada castração de filhote (já foram mais de 350 ao longo dos últimos anos).

Guilherme Agnew, fundador da Dog's Heaven
Guilherme Agnew, fundador da Dog’s Heaven

“O poder público deveria mandar castrar todas as fêmeas em situação de abandono. E isso está na lei, mas o problema é conseguir que a lei seja cumprida. Existe um projeto de um castramóvel, um veículo que vai de bairro em bairro castrando animais. Só que isso sai muito mais caro do que se fizessem credenciamento de clínicas nos bairros, para castração dos animais. Hospital, por exemplo, também não funciona, porque quem não tem carro não tem como levar o animal até um hospital na cidade. Tem que ser um projeto de credenciar pelo menos uma clínica em cada bairro”, afirma Guilherme.

(Em março de 2017, o então presidente Michel Temer sancionou a Lei 13.426/2017, que cria a política de controle de natalidade de cães e gatos por meio de castração “ou outro procedimento que garanta a eficiência, segurança e bem estar do animal.” O Projeto de Lei havia sido aprovado pelo Senado em 2010 e demorou 7 anos!! para ser aprovado pela Câmara dos Deputados.)

Foto do Guilherme Agnew, brincando com cachorro na Dog's Heaven, tirada pela fotógrafa Katia Coronato
Foto do Guilherme Agnew, brincando com cachorro na Dog’s Heaven, tirada pela fotógrafa Katia Coroando

A castração

Uma cadela entra no cio a cada 6 meses e uma gata a cada 3. Se fizermos as contas, ao longo de 10 anos, vamos chegar a números muito assustadores. Imagine uma cadela tendo uma média de 12 filhotes por ano (em duas gestações). Em 10 anos, essa cadela poderá dar origem a mais de 80 milhões de animais.

Além de ser solução eficaz para reduzir o número de animais de rua, a castração de fêmeas até os 7 meses (antes do primeiro cio) também reduz o risco de problemas de saúde (reduz em 80% o risco de câncer de mama e evita doenças venéreas, como o tumor venéreo transmissível).

A veterinária que atendeu a cadela resgatada por Marcia em Petrópolis foi Priscila Viveiros Mesiano, da Clínica Amigo Bicho. Priscila conta que a castração pode ser feita em filhotes de mais de 4 meses de idade:

“O protocolo muda de clínica para clínica. Preferencialmente, é feito um exame pré-operatório, mas muitas vezes isso não é possível, por falta de verba. O cão toma anestesia geral, é operado e os pontos são retirados em cerca de 10 dias. No caso de fêmeas, são retirados útero e ovários e, no de machos, os testículos. O animal não precisa ficar internado, mas é recomendado tomar antibiótico, analgésico e antiinflamatório depois da cirurgia e fazer repouso. Se o cachorro não tiver casa, recomendamos um lar temporário, uma hospedagem ou a própria clinica para o pós-operatório.”

E no caso de cães de rua? Como é o pós-operatório?

“Sempre existe um responsável pelo animal que vai ser castrado, pelo menos aqui no centro de Petrópolis. É a pessoa que dá comida e água, que dá remédio ocasionalmente, dá vacinas …  podem ser lojistas, moradores, pessoas que se cotizam para ajudar … No centro histórico todos os cães são castrados e estão bem assistidos e isso não tem nada a ver com a prefeitura. É uma conquista particular de cada um fazendo um pouquinho. Recentemente eu coloquei medicação contra pulga e carrapato em todos eles”, conta.

A veterinária Priscila Mesiano com a cadela Linda, esperando uma adoção na Dog's Heaven
A veterinária Priscila Mesiano com a cadela Linda, esperando uma adoção na Dog’s Heaven

Priscila falou que, apesar da ajuda da população, é fundamental que haja uma mudança de política pública para que a cidade consiga castrar os animais de comunidades carentes, de forma massiva.

“Além disso falta educação nas escolas, conscientização sobre bem-estar animal e posse responsável. Isso está melhorando, mas pode melhorar ainda mais. E a prefeitura não faz isso.”

O exemplo da Holanda

Um belo exemplo de política pública vem da Holanda. Recentemente, o país se tornou o primeiro do mundo a zerar o número de cães vivendo nas ruas. Para quem acha que a situação por lá é muito mais fácil, não é bem assim. No século XIX, o país enfrentou um seríssimo surto de raiva provocado, pela enorme quantidade de cães abandonados. E aprendeu com a história. A Holanda criou um plano de governo baseado em 4 pilares, sem precisar recorrer ao sacrifício de animais ou a abertura de canis públicos.

O plano holandês incluiu:

1) a criação de leis severas contra o abandono de animais (3 anos de prisão e multa de 17 mil euros para quem maltrata ou abandona animais de estimação);

2) realização de campanhas de castração e de conscientização da população;

3) cobrança de um alto imposto a ser pago por aqueles que compram cachorros de raça, promovendo a adoção de cães abandonados;

4) incentivo da castração gratuita de animais de estimação.

Enquanto não somos Holanda, a participação da população é fundamental. Exemplos como o de Marcia não faltam. É preciso que cada um faça um pouco.

“Agora a cadela vai ficar uns dias na minha casa, até eu conseguir uma adoção. Tenho certeza de que alguém vai poder ficar com ela, alguém que possa mudar tudo na vida dessa cadela”, completa Marcia, que adotou um filhote de vira-lata, o Gru, há alguns anos, abandonado dentro de um saco plástico na beira de um rio, com menos de um mês de idade.

“O Gru me encontrou, ela também vai ter sorte grande.”

O antes e depois do banho
O antes e depois do banho

Maneiras de ajudar a entidade filantrópica Dog’s Heaven a cuidar dos 230 cães que acolhe atualmente

  1. ser voluntário (aparecer para dar uma mão ao Guilherme e seus assistentes, fazer um carinho nos peludos …)
  2. ser doador de dinheiro (qualquer quantia / ver instruções no site http://dogsheaven.org.br)
  3. ser padrinho de um animal (custo médio de 150,00 mensais)
  4. financiar castrações (custo unitário de 150,00)
  5. ajudar a divulgar o projeto nas redes sociais, principalmente Facebook e Instagram. Isso ajuda muito e muda tudo!
  6. e a melhor de todas: adotar um animal!

contato:

Tel. (24) 9266-3038 / 8831-6577 / 9811-3131

[email protected]

Banco Itaú
Agência 8062
Conta Poupança 16395-4/500
CNPJ: 18.667.467/0001-55
Dog’s Heaven Entidade Filantrópica