Água: contra a escassez, conscientização e cooperação

A cada 20 anos, o consumo de água duplica no mundo. Segundo a ONU Habitat (Programa das Nações Unidas para Assentamentos Humanos), uma de cada 4 cidades do mundo está em regiões onde a demanda por água é superior à oferta. E a qualidade desse recurso natural se deteriora rapidamente por causa da ação do homem. As previsões para 2025 indicam que pelo menos 2/3 da população mundial vai viver em zonas afetadas pelo chamado “stress hídrico”. Ou seja, daqui a 6 anos, faltará água para cerca de 5 bilhões de pessoas.

Foto: Pixabay
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O cenário assusta e o desafio é grande. Para combater a escassez de água, algumas ações vêm sendo realizadas com resultados positivos. Um dos modelos que têm se mostrado eficientes é o de fundos de água.

Fundos de Água

Fundos de Água são instrumentos de gestão de recursos naturais, financeiros e técnicos, para garantir que haja um estoque de água no futuro. O investimento em um Fundo de Água é uma solução custo-efetiva, resultado de parcerias entre diversos atores: organizações não governamentais, governos, empresas e sociedade civil. Todos com o objetivo comum de contribuir para a segurança da água, por meio do investimento na proteção e na restauração, principalmente, das bacias hidrográficas, que são as fontes de nossa água doce.

Foto: Pixabay
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Os Fundos de Água procuram soluções na própria natureza, com a ajuda da Ciência. Em alguns países, por exemplo, são implementados modelos de pagamento pelos serviços ambientais prestados por famílias que vivem na parte alta das bacias hidrográficas, cuja atividade incide diretamente na conservação do meio ambiente.

Um especialista em fundos de água

Conversamos com o colombiano Alejandro Calvache, coordenador de estratégia de água da The Nature Conservancy (TNC), a maior ONG do mundo com foco em meio ambiente.

Alejandro Calvache, da The Nature Conservancy
Alejandro Calvache, da The Nature Conservancy

Muda Tudo: Alejandro, como é a situação de água na América Latina?

Alejandro: A América Latina é uma das regiões de mais rápido crescimento econômico e uma das mais urbanizadas do planeta. Segundo estimativas, 80% dos latino-americanos vivem em cidades hoje e, nos próximos 15 anos, a população urbana vai passar de 260 milhões para 315 milhões. Apesar de vivermos em uma região beneficiada pela natureza (em termos de clima e de florestas), temos um enorme desafio, que é o abastecimento de água potável a custos razoáveis.

Foto: Pixabay
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Muda Tudo: E como lidamos com esse desafio?

Alejandro: O abastecimento de água potável a custos razoáveis requer grandes investimentos para a construção de infraestrutura física, como reservatórios e plantas de tratamento. Além disso, também são necessários investimentos que permitam recuperar e conservar ecossistemas estratégicos, que são os provedores da água consumida nas cidades em expansão. Essa infraestrutura natural (as bacias hidrográficas) é fundamental para reduzir os riscos associados à quantidade e à qualidade da água. As nossas bacias vêm recebendo muita pressão: o desmatamento, a agricultura, a pecuária extensiva, a mineração, a urbanização e, claro, a mudança climática.

Muda Tudo: Desde quando a TNC trabalha com Fundos de Água?

Alejandro Calvache: Há duas décadas a TNC vem trabalhando com o desenho e a implementação dos Fundos de Água. Os Fundos financiam projetos com comunidades locais, para proteger e recuperar florestas, proteger nascentes e água corrente, promover sistemas de produção mais sustentáveis e capacitar as comunidades de agricultores locais para realizar um manejo sustentável dos recursos naturais. Com isso, buscamos reduzir a pressão sobre os ecossistemas e garantir o abastecimento de água (em quantidade e qualidade) para nossas cidades. Adicionalmente, se cria um capital de reserva (endowment) a fim de cobrir os custos operacionais do projeto e assegurar a sustentabilidade do fundo.

Muda Tudo: Qual foi o primeiro Fundo de Água na América Latina?

Alejandro Calvache: Foi o de Quito, no Equador, no ano 2000. A inspiração veio de uma experiência realizada nos anos 1990 em Nova York, quando a cidade decidiu proteger suas fontes de água com o objetivo de reduzir os custos do tratamento e evitar investimentos em novas plantas. Em Quito o projeto se chama FONAG (Fondo para la Protección del Agua). O Fundo foi criado para existir por um período de 80 anos com um pequeno investimento de US$21,000. De lá para cá, aumentou para US$16 milhões. O principal desafio naquela região tem a ver com a pecuária, que contamina a água, causa erosão do solo e repercute negativamente na conservação da natureza.

No Brasil, existem 5 Fundos de Água funcionando e outros em fase de estudo para implementação. Eles envolvem os rios Piracicaba, Capivari, Jundiaí e Alto Tietê (em São Paulo), rio Guandu (Rio de Janeiro), rio Pipiripau (no Distrito Federal), rio Camboriú (Santa Catarina) e o programa Reflorestar, no Espírito Santo.

Foto: Pixabay
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Muda Tudo: Como cada um de nós pode ajudar a contribuir para proteger a nossa água? Que ações individuais mudam tudo no coletivo?

Alejandro Calvache: A população deve ter consciência sobre a importância da água e os problemas gerados por sua escassez.  Devemos agir conscientemente: não desperdiçando água, sabendo de onde vem a água que consumimos, como ela chega à nossas casas… E devemos participar de iniciativas para proteger a água. Devemos reconhecer o valor real da água. Para termos água, não basta simplesmente abrir a torneira. Por trás desse gesto aparentemente simples, existe um longo processo, que inclui tubulações, plantas de tratamento e, claro, a natureza, da qual devemos cuidar. A cultura da água, a informação e o conhecimento mudam tudo no coletivo.